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Por Alliah

Imagine-se num mundo onde, para se manter vivo, é preciso encher com frequência os pulmões de ar como se enche um tanque. E que nesse mundo a comunidade científica se vê às voltas com um mistério: a memória. Embora tenham estudado e entendido a fisiologia maquínica do corpo, o cérebro é muito difícil de ser analisado, por ser frágil demais. Constantemente, num acidente que atinge a cabeça, o cérebro escapa numa nuvem de ouro, dispersando-se em filamentos e folhas. Agora imagine que você, interessado em desvendar os mistérios da fisiologia cerebral, resolve realizar um autoexperimento. Você monta um engenhoso equipamento em sua casa, constituído por um jogo de prismas e ferramentas de manipulação. No meio da parafernalha toda, corretamente posicionado, olhando para frente, você  consegue ver o reflexo da parte de trás da sua cabeça. E então você começa a dissecar com cuidado o próprio cérebro e revelar intrincadas engrenagens douradas. 

Isso é apenas um pedaço do que acontece em Exhalation, conto de Ted Chiang, que foi o merecido vencedor do Hugo Award 2009 em Best Short Story e entrou para minha lista de favoritos. A história não se limita a essa situação, mas essa cena específica em que o narrador-personagem disseca o próprio cérebro é de uma excelência ímpar. As imagens descritas ali nunca mais saíram da minha cabeça, sem trocadilhos.

Eu fiquei maravilhada com a engenhosidade daquilo, mas não fazia ideia em qual subgênero encaixar a história. Encontrei a resposta num artigo do io9 sobre o aparente surgimento de uma nova tendência na literatura especulativa: SciFi Strange. Assim, de cara, eu gostei do nome. Tem uma sonoridade bacana e parece empacotar bem tudo que andava explodindo na minha cabeça após a leitura de Exhalation. Aceitei o subgênero de imediato, só pelo paladar da coisa. Mas será que o SciFi Strange existe?

O termo foi inventado pelo escritor americano Jason Sanford, em 2009, num pequeno post em seu blog pessoal, intitulado The Noticing of SciFi Strange. Jason começa o texto avisando que aquilo não é um manifesto, mas apenas uma observação. O autor cita um tuíte de Gareth L. Powell que diz: “Nós já tivemos o New Weird e o Steampunk. Qual será a “próxima grande sensação” na ficção científica?”. E Jason responde afirmando que a “próxima grande sensação” já está acontecendo, e que nós apenas não temos um nome para ela. Resumindo, ele define o SciFi Strange como uma ficção que bebe na fonte da New Wave (a FC soft dos anos 60 e 70) e usa o experimentalismo tanto na forma quanto no contéudo, mas mantendo o caráter de especulação científica, sem cair na fantasia.

Quando comecei a tentar entender essa ideia, tendo em mente apenas o Exhalation e o post do Jason Sanford, caí logo no lado subjetivo da questão. Devo dizer que meu conhecimento da New Wave da FC é bem pequeno, então as relações que fiz foram quase todas com a estranheza e a sensação de deslocamento provocados pelo weird recente. Aliás, Jason diz que na introdução que David Hartwell e Kathryn Cramer escreveram para seu conto The Ships Like Clouds, Risen by the Rain, publicado em Year’s Best SF 14, eles comentaram que, se houvesse algo chamado FC New Weird, seria aquilo. Na dúvida se a narrativa vai pelo weird ou pelo strange científico, à primeira vista, o sense of wonder  oriundo de uma especulação tecnológica (ainda que inserida num contexto soft) talvez sirva como um indicador de que estamos diante de uma obra SciFi Strange. Mas quantos outros subgêneros também nos proporcionam esse tipo de sensação? Lembro de quando li Os Próprios Deuses, de Isaac Asimov, ficção científica clássica da melhor espécie, e fiquei remoendo na cabeça a ideia da Bomba Eletrônica. Deu aquele estalo nas engrenagens dos miolos. É o tipo de especulação que faz a gente se viciar. Depois de provar uma ideia assim, queremos mais estalos do mesmo nível, um período de alta concentração de maravilhamento no sangue. Se a leitura seguinte não atender às minhas expectativas exageradamente elevadas, a leitura fica com gosto de isopor de queijo velho. E, apesar do meu apreço especial por tudo que se encaixa no weird, seja ele velho, novo ou morto-vivo, essa sensação pode ocorrer com tudo quanto é tipo de literatura. Então o tal do sensawunda esquisiforme é vago demais para definir um subgênero tão específico.

Senti que precisava ler muito mais para decidir se aceitava esse papo de SciFi Strange e me deparei com uma antologia virtual organizada pelo Jason. Neste post de 2010 o autor compila uma série de contos e noveletas (todos disponíveis online) que ele acha que se encaixam no SciFi Strange. São eles:

Publicado no Eclipse Two; ganhador do Hugo Award 2009 em Best Short Story.

Publicado na Clarkesworld Magazine.

Publicado na Fast Forward 2; finalista Hugo e do Nebula Awards 2009 em Best Novelette.

Publicado na Interzone, ganhador do Nebula Award 2009 em Best Novelette e finalista do Hugo Award 2009.

Publicado na Clarkesworld Magazine.

Publicado no Tor.com, finalista do Hugo Award 2009 em Best Novelette.

Publicado no Interzone; ganhador do Interzone Readers’ Poll de 2006.

Publicado no Subterranean Online.

Publicado na Clarkesworld Magazine.

Publicado na Interzone e republicado na Year’s Best SF 14.

Publicado na Strange Horizons.

Publicado na Interzone. Ganhador do Interzone Readers’ Poll de 2007.

Publicado na Fantasy Magazine (mas considerado pelo Jason como FC).

Originalmente publicado na Asimov’s.

Publicado na Asimov’s.

Publicado na Interzone, listado para o British Science Fiction Award, e republicado na The Year’s Best Science Fiction: Twenty-Eighth Annual Collection.

Variedade na ficção fantástica escrita em inglês é o que não falta. Mas e em português? Há alguma FC Estranha em terras brasileiras? Bem, pelo menos a produção de weird existe. E o nome mais forte é o do Jacques Barcia. Uma história excelente do Jacques que cabe nos questionamentos da SciFi Strange é o conto Uma Vida Possível Atrás das Barricadas, publicado na coletânea Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário, da Tarja Editorial, e recentemente publicado em inglês na antologia The Apex Book of World SF 2, com o título de A Life Made Possible Behind The Barricades. O conto possui um cenário Steampunk e fortes elementos do New Weird. Em suma, é a história de um casal formado pela golem Chaya e pelo autômato Fritz, que buscam um meio tecnológico de terem um filho, mas num momento bem inoportuno:

“‘O quê?’ Fritz estava hipnotizado. Os dois corpúsculos flutuando haviam se aproximado e, ele podia jurar, estavam se misturando e, ao mesmo tempo, se dividindo. ‘Amor! Acho que está dando certo!’ Ele virou sorrindo para Chaya, que tinha a face muito severa e as mãos atrás da nuca.

O clique engatilhando a arma despertou o motolang.

‘Desça, Fritz.’ Emílio estava firme, apontando a pistola.

As tropas do Comitê forçaram a barreira e entraram. Uma dezena ou mais, não era possível contar. Um dos soldados circulou a mesa e pegou a caixa de maderia sobre a lona marrom. ‘Eu não estou entendendo, Emílio. O que está acontecendo?’ Para Fritz, a sensação era de onisciência reversa. Ele via Chaya rendida, os soldados recebendo comandos de Emílio, e um embrião de madeira e metal crescendo num útero de vidro. Mas estava diluído, efêmero em sua confusão. Inexoravelmente incapaz”.

Se fôssemos ler esse conto do ponto de vista da SciFi Strange, não encontraríamos muita dificuldade na identificação dos elementos. A FC soft está ali, junto com a estética weird e as especulações filosóficas que se sobrepõem às tecnológicas, mas sem esmagá-las ou apagá-las. Pelo contrário, elas se misturam maravilhosamente bem. É Stempunk, é New Weird e poderia ser SciFi Strange.

Essa salada de subgêneros funciona bem com a FC soft. É fácil se envolver com a especulação científica fantástica porque ela não parece um livro técnico de não-ficção ficcional, o tipo de coisa que entra no campo da FC hard (que eu gosto muito também, devo dizer). Um exemplo de FC hard seria usar o conhecimento paleontológico atual sobre o Tiranossaurus rex e, com base em sua ossatura e musculatura, criar um dragão de morfologia similar e calcular biomecanicamente a pressão de uma mordida para que a cena de um ataque não soe inverossímel quanto aos estragos que as mandíbulas dracônicas causariam numa pobre criatura desarmada. Mas volto a essa questão mais à frente (ao soft/hard, não ao Dracossauro).

O escritor e designer de jogos Jon Ingold comentou neste ótimo post em seu blog o SciFi Strange, que ele não acha que seja de fato uma nova tendência, nem que exista nada de especialmente estranho nas histórias. Falou sobre um artigo de Andy Hedgecock: From New Wave to SciFi Strange: thematic shifts in the SF short story, publicado no primeiro volume da Short Fiction in Theory and Pratice, em Março de 2011. Um trecho do abstract diz o seguinte: “Conclui-se que há mudanças na ênfase temática similares àquelas inspiradas pela New Worlds: esses são trends emergentes em vez de mudanças gerenciadas, feitas de cima para baixo. Os escritores de FC Moderna estão rejeitando a nostalgia por histórias tecnológicas em favor de histórias que desafiem aspectos significativos da experiência humana como a política e o abuso de poder, os desastres ecológicos e a fragilidade da identidade. Escritores e editores parecem compartilhar a visão daqueles por trás da New Wave de 1960 de que a ficção literária mainstream não é adequada para abordar esses assuntos complexos e vitais.”

No artigo são destacados os elementos que caracterizariam uma ficção SciFi Strange, numa pequena lista que eu traduzo a seguir:

  • Histórias que estabelecem altos padrões literários;
  • Histórias que experimentam com o estilo;
  • Histórias imbuídas no sense of wonder associado à FC e à Fantasia tradicionais;
  • Histórias que aceitam a expressão da diversidade sexual sem destacar isso como tema;
  • Histórias que aceitam várias visões sobre o uso de drogas sem destacar isso como tema;
  • Histórias que aceitam a diversidade e a diferença e exploram os valores e necessidades humanos básicos;
  • Histórias que exploram as fronteiras da realidade e da experiência através da especulação filosófica (podendo envolver a aplicação de conhecimento e conceitos científicos, mas sem se amarrar ao desenvolvimento tecnológico ou à aplicação rigorosa da análise científica).

A questão da especulação filosófica acima da especulação tecnológica foi o elemento que mais chamou minha atenção. E, com isso, minha opinião vai pelo caminho do que disse Jon Ingold em seu blog. SciFi Strange nada mais é do que FC acessível. Jon cita a terceira lei de Clarke para explicar como ele entende o tipo de especulação científica soft que Jason abordou: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”. Daí o sensawunda da coisa. É o tipo de história em que não cabe questionar a exatidão científica dos detalhes, porque o tecnicismo se rende ao aspecto mais conceitual do enredo.

Um exemplo simples dessa ciência mágica são os Five Swell Guys, em Promethea, HQ de Alan Moore. O Five Swell Guys é um grupo de science-heroes, que nada mais são do que super-heróis de poderes modestos, travestidos como agentes de segurança que se utilizam de tecnologia avançada. Podemos pensar também na ciência mágica que vemos em Transmetropolitan, de Warren Ellis, e The Invisibles, de Grant Morrison. Os quadrinhos possuem a vantagem do recurso visual para expressar essa FC acessível e saturada de sensawunda, mas se dispensarmos as imagens e pegarmos apenas o roteiro, vamos encontrar ali o mesmo tipo de história que, apesar das inúmeras especulações científicas, é focada numa trama conceitual e filosófica. Na edição 8 de Transmetropolitan, Another Cold Morning, lemos sobre os cryogenic revivals, pessoas mortas do passado que tiveram seus corpos preservados e foram acordadas no futuro. Há toda uma especulação soft envolvendo suspensão neurológica, preservação em nitrogênio líquido, nanotecnologia, exportação de memória, robôs-molécula etc. Mas o importante mesmo é a situação psicológica dessas pessoas quando elas acordam e passam pelo processo de habilitação. É nisso que o roteiro se concentra, explorando o lado social da questão, já que o resultado dessas operações é que essas pessoas não aguentam aquele mundo novo e enlouquecem, indo parar nas ruas.

Mas depois de todas as considerações desse artigo, a certeza que fica é a de que existe essa bruxaria do SciFi Strange só passar a existir se um determinado número de pessoas falar o nome em voz alta, invocando-o a deixar o limbo dos subgêneros e passar para o nosso mundinho físico de rotulações mercadológicas. Parece uma solução elegante para a discussão, a meu ver. Mas deixo a cada um a tarefa de ler todas as histórias listadas lá em cima e abrir sua própria caixa schrodingeriana de decisão. Se a dúvida persistir por algum acaso quântico, pelo menos você terá se divertido com um punhado de ficção da melhor safra atual de FC&F.

Notas:

1. Em 2009, Jeff VanderMeer respondeu ao post de Jason Sanford com alguns comentários dizendo que o SciFi Strange não existe como movimento ou gênero, entre outras considerações pertinentes.
2. Jason Sanford respondeu aos comentários de Jeff, falando brevemente sobre o uso da linguagem e as experimentações estilísticas no New Weird e no SciFi Strange.
3. Aproveitando que levantei The Invisibles como um exemplo quadrinístico de FC mágica e que parte da discussão sobre o SciFi Strange recai no uso da linguagem, recomendo esse excelente texto do @agrt: “Os Invisíveis: contra a linguagem e o conformismo realista” sobre a linguagem como manipulação e controle sobre o indivíduo.

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