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Por Marcelo Maluf

Trecho do conto Esquece tudo agora, que abre a coletânea homônima de Marcelo Maluf. O livro será publicado pela Editora Terracota, com lançamento em 14/04:

Imagine uma montanha. Bem aqui. Uma montanha coberta de neve e alguns carneiros passeando, ou melhor, sendo conduzidos por um cão pastor. Depois imagine um carro em alta velocidade. Um carro vermelho. Ele passa atropelando todos os animais. Se alguém me dissesse isso, em qualquer lugar, na fila do pão, no estacionamento do shopping, no horóscopo daquelas tevês do metrô, no cinema, no elevador… Se na feira alguém gritasse isso, ao invés de tentar me vender banana prata e abobrinha italiana, eu diria: “Essa sou eu”. É exatamente assim que eu me sinto, sabe? Uma montanha fria com carneiros pisando fazendo cócegas nas minhas costas. E do nada vem um carro vermelho, e atropela os bichinhos, e me arranha nas costas. Dói. Só um carro vermelho é que dói assim. Mas depois a montanha se recupera, os carneiros voltam a pastar e o carro escorrega montanha abaixo e bum! Explode. Fica mais vermelho ainda. Fumaça. Só resta a fumaça, anunciando que o carro vermelho vai virar cinza, depois pó, depois nada. Ou talvez reste a lataria queimada. Também é assim que eu me sinto: um carro vermelho que virou nada.

 

Daí vem alguém e diz: “Por que é que você escolheu o carro vermelho e a montanha coberta de neve? Você poderia ter escolhido outra coisa… Veadinhos correndo entre pinheiros… Tartarugas enterrando os seus ovos na beira do mar…Uma orgia de elefantes…um casal de namorados no zoológico comendo maça do amor…O Chico Buarque cantando, voz e violão, só pra você…”

Mas não era nada disso, eu não tinha imaginado a cena. Eu estava lá: dentro do carro vermelho. Sentada no banco de trás. Estreita e leve, assim como eu sou. E do ponto de vista da janela do carro vermelho, os carneiros eram uma espécie rara de carneiros assassinos e o cão pastor, um monstro feroz de cinco metros de altura. A montanha, um vulcão à beira de uma erupção. O carro vermelho, uma mula cansada e triste. Foi quando eu ouvi um som. Eu tinha achado estranho. O carro não fazia aquele barulho. O carro não miava. Um gato branco recém-nascido. Visualize depois esse mesmo gato pegando fogo. Dá pra imaginar? É a coisa mais triste do mundo. Branco pegando fogo. Não! Eu não sou uma personagem morta, como Matias Pascal ou Brás Cubas. E também não tenho nenhum segredo… Mas eu estava falando do gato branco. Detalhe: ele não tinha aquela fitinha vermelha no pescoço. Foi talvez por isso que eu logo quis que ele fosse meu. Se eu fosse bicho, queria ser gato, mas não gato de desenho animado que sofre muito, queria ser como aquele gatinho branco, sem fi tinha vermelha no pescoço. Podia ser preto inteiro também. Preto ou branco, sem manchas, sem aquelas listrinhas. Acho aquelas listrinhas cafonas demais.

Mas antes que o carro vermelho subisse a montanha, eu estava dentro dele.

Esquece tudo agora.

E imagine um lago. Bem aqui. Um lago repleto de peixinhos laranjas e dourados. Depois um ornitorrinco ensinando esses peixinhos a respirarem fora da água. Depois imagine um submarino espião. Um submarino azul. E por mais que eu queira dizer amarelo, o submarino era azul. Também não sei de onde o submarino surgiu. Depois visualize o submarino sugando somente os peixinhos dourados e o ornitorrinco dando cabeçadas na lataria daquele monstro marinho, sem obter nenhum tipo de sucesso. Pois é. É exatamente assim que eu me sinto: um ornitorrinco dando aulas para peixinhos que não aprenderão nunca a respirar fora da água e assistindo sem poder fazer nada um submarino azul sugando os meus aluninhos para sabe lá onde, para fazer sabe lá o quê. Depois visualize um meteoro caindo aleatoriamente naquele lago no fi m do mundo, espatifando em dez pedaços o submarino e toda a sua tripulação. Bum! Plush! Depois imagine os restos de corpos caindo no fundo do lago e servindo de alimento aos peixes e ao ornitorrinco. Alguns dirão: justiça divina. Que nada. Imagine depois que o tal meteoro era apenas lixo espacial. Na verdade, restos de um carro incinerado. Que se observado de perto ainda exibia sua cor original: vermelho.

Não! Eu também não imaginei essa cena. Eu estava lá. Dentro do submarino azul. Leve e estreita como eu sou. Sentada ao fundo. E do ponto de vista do submarino, os dóceis peixinhos eram tubarões brancos e o ornitorrinco, um crocodilo de cinco metros de comprimento. E o submarino, uma baleia velha e cansada. Foi quando eu ouvi um ruído. Eu achei aquilo estranho. O submarino não fazia aquele barulho. O submarino não roía. Um rato branco recém-nascido. Imagine depois esse mesmo rato se espatifando. Dá pra imaginar? É coisa mais triste do mundo. Branco espatifando. Não! Eu não estou inventando nada. Adoraria ter essa capacidade de criar histórias, mas não. Eu não inventei nada. Mas eu estava falando do rato branco. Se eu pudesse ser um bicho, eu seria um rato. Não um rato de verdade, que sofre muito, seria um rato de desenho animado. Podia ser marrom como o Ligeirinho, mas rato. Não como o Mickey, que é meio gente, meio rato. Aquilo é sem graça demais.

Mas antes que o submarino azul surgisse no lago, eu estava dentro dele.

Esquece tudo agora.

Não imagine nada. Bem aqui o nada. Depois não imagine nada. Nada aconteceu. Eu e o nada. Depois visualize o nada. E tudo é nada. E do ponto de vista do nada, nada aconteceu. É exatamente assim que eu me sinto. Não. Eu não inventei o nada. E também não sou personagem de nada. Leve e estreita. Sentada no fundo do nada. O Nada não é deserto.

Agora lembra.

* Texto reproduzido com permissão da editora e do autor que esqueceram tudo, logo após.

* A Editora Terracota disponibilizou o conto Esquece tudo agora na íntegra em PDF, no site da própria editora.

* Se eu fosse você, eu lia. E ainda passava no blog do autor.

2 pensamentos em “Esquece tudo agora, coletânea de Marcelo Maluf

  1. Não conhecia esse lado do Maluf e achei bem bacana a levada do texto, da narrativa, do enredo. A alteração do foco narrativo dançando no imagético do leitor às vezes bagunça o próprio leitor (eu!), mas… esquece tudo!

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