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Por Rober Pinheiro

Considerada como a grande precursora da chamada literatura fantástica no Brasil, a obra de Murilo Rubião caracteriza-se por dois aspectos bastante significativos: o primeiro, o próprio surgimento insólito de sua escrita, carregada de elementos fantásticos e desengajada de qualquer movimento literário existente no Brasil até então, o segundo, sua maneira muito particular de explorar o chamado “realismo mágico”, já trabalhado em outras esferas literárias por autores como Jorge Luis Borges, Júlio Cortazar, Juan José Arreola e Gabriel Garcia Márquez.

Na literatura muriliana, especialmente em contos como “O Ex-mágico da Taberna Minhota”, “Teleco, o coelhinho” e “O Edifício”, o extraordinário está no cotidiano, nas pequenas coisas que tornam a vida cheia de significados que, para o autor, tem um equilíbrio exato de matéria e textura entre o real e o mágico e que surgem como ponto de partida para a busca de outras significações. Acontecimentos geralmente contrários e inconciliáveis se reconciliam tranquilamente durante o desenvolvimento do texto.

Os fatos tornam-se uma espécie de sublevação de sentimentos corriqueiros, transpostos para o viés fantástico pela simples impossibilidade da representação direta. Entretanto, mesmo em face de tal artimanha, a sensação de impotência, de fraqueza ante “forças contrárias” está presente ao longo da narrativa, como uma alavanca prendendo-o ao realismo pretensamente manobrável.

No conto “O Ex-mágico da Taberna Minhota”, um dos aspectos temáticos centrais é exatamente esse, o do sentimento de impotência que experimenta um mágico desencantado por “não ter realizado todo um mundo mágico”, antes de ter seus poderes “drenados” pela burocracia.

O mágico não se move, como o mago característico, por uma ânsia de posse e domínio da realidade; ele é, antes de tudo, um hábil manobrador da ilusão, o mago relegado ao palco de espetáculos, poderoso o bastante para se esquivar dos olhares atentos e encantar os homens. Ele ilude os olhos e quebra a banalidade repetitiva da existência: do fundo da cartola, num passe de mágica, saltam coelhos e, como resultado, gera-se o espanto.

No conto “Teleco, o coelhinho” temos a questão da inconstância eterna entre o querer (mágico) e o ser (real). Teleco, um metamorfoseador nato, passa os dias a mudar constantemente de forma sem, no entanto, dar-se por satisfeito com nenhuma delas. De coelho a leão, de canguru a cachorro, todas as novas roupagens se apresentam falhas e passíveis de evolução, até que, num dado momento (numa espécie de epifania às avessas) ele encontra num amor corriqueiro a projeção da forma perfeita, da matriz final que tanto buscava: a forma humana. Em Teresa, ele finalmente descobre sua razão derradeira, passando a denominar-se homem a partir de então. O interessante aqui é notar como o próprio nome da amada, Teresa, (cuja etimologia significa ceifeira e/ou caçadora) evoca a questão da finitude da mudança, da estagnação, pois é através dela, ou de seu pretenso amor, que Teleco finalmente deixará de se metamorfosear.

Já no conto “O Edifício”, é bem perceptível a identificação metafórica entre o processo de estruturação da narrativa e a metamorfose. A construção infindável de um “absurdo arranha-céu”, a que sempre é possível acrescentar novos blocos e novos andares, pode ser entendida também como uma alegoria da própria construção ficcional do que se está lendo. O desenvolvimento do prédio é, até certa altura, ameaçado pelos riscos de paralisação das obras, o que, implicitamente, representa ainda uma ameaça de detenção do que está sendo narrado, que acompanha a transformação do seu objeto ao mesmo tempo em que transforma o texto. Passado o momento do perigo para o prosseguimento indefinido da construção (ou seja, passado do 800º andar, o “limite aceitável e imposto”), ocorre uma fantástica e irônica rebelião dos meios contra os fins: o próprio engenheiro-construtor, vencido pelo tédio e pela ciência de sua impotência diante de tal obra, já não consegue deter o processo; os operários se recusam a interromper o trabalho e chegam mesmo a acelerá-lo, ao ouvir as belas imagens dos discursos feitos para desanimá-los. Há, portanto, a mudança de sentido, a metamorfose da dialética: do dito para o não feito.

Se n’O Ex-mágico… há a mudança da condição do fazer e em Teleco a mudança do ser, aqui, a transformação se dá no campo semântico, das palavras que reverberam em ações contrárias as postuladas.

Ao entrar no universo destes contos, o primeiro impulso do leitor será se voltar para uma leitura alegórica, um desdobramento do texto num conteúdo subjacente, que o transformará em mensagem de significado diverso daquele dito no texto. Mas, este não deve ser o único dos caminhos a ser trilhado.

É preciso, na prosa muriliana, ler literalmente, acatar as regras do jogo, fixando a atenção na própria construção do enredo. O fantástico, como tudo, se rotiniza. Mas, sem ele, não há como se reinventar. A arte do mágico, assim como a do coelho ou do engenheiro, parece ser a de esconjurar a esterilidade sem sentido do mundo real e, através de sua extrapolação, propiciar a germinação do fantástico. Próximo do mito, a sua transformação constante instaura o reino insólito, da não-impotência, onde tudo pode acontecer, mesmo as coisas mais absurdas.

*A versão integral do artigo O mágico humano na obra de Murilo Rubião encontra-se disponível no site do autor.

*A foto do autor em seu estilão noir foi pega no site oficial sobre a obra de Murilo Rubião.

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