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Por Ana Cristina Rodrigues

Desde o final de 2010 venho me dedicando à uma atividade que exige paciência, tolerância, calma e paciência (sim, em dose dupla): ser editora. Juro que gosto de mexer no texto alheio, escolher capa e diagramação, escrever textos de apresentação. Não gosto muito da parte burocrática (ISBN, distribuição, contratos, vendas e outras coisas), mas com a parceria que estabeleci dá para levar.

Mas tem algumas coisas que me tiram do sério. E isso mesmo antes do autor entrar para a editora. 

Quando pensei no selo, um dos meus primeiros passos foi parar e pensar: que tipo de obras eu ia querer receber? Como? E os autores? Como saber quem são, o que fazem, como conhecer melhor essas pessoas com quem irei trabalhar? Dessas minhas dúvidas e vontades, tirei a política de recebimento de originais da Llyr Editorial. O documento pronto rodou a mão de amigos escritores, muitos deles iniciantes, que entenderam e aprovaram.

Então, eu sei que não estou falando grego, javanês ou dothraki. Por isso, passei meses sem entender por qual motivo, razão ou circunstância os escritores mandavam seus originais totalmente fora do que eu pedi, das formas mais bizarras possíveis.

De repente, entendi. Eles não queriam publicar comigo. Não, longe disso! Eles querem é deixar o material inédito e manter a fama de perseguidos/injustiçados/incompreendidos, podendo ao mesmo tempo ser sinceros e dizer ‘mandei para a Ana, mas ela sequer me respondeu, a gorda filha da puta’.

Para facilitar a vida de vocês, aspirantes a escritores que almejam assim ficar eternamente, juntei dez regrinhas que com certeza farão o editor deletar seu e-mail mais rápido do que você imagina.

1-      Procure o editor por meio de seus contatos pessoais

Sério, poucas coisas me deixam com mais má vontade do que um completo desconhecido, que nunca falou comigo na vida antes, vir me procurar no meu e-mail/facebook/twitter/skoob pessoal para apresentar sua obra. Não tenho nada contra a pessoa vir conversar comigo e no meio do papo mencionar o seu livro e tal, mas mandar original não solicitado pro meu e-mail me irrita de um tanto…

2-      Pratique a arte do autoelogio

Ser autoconfiante é bom, ter autoestima elevada também, mas vamos combinar que para tudo existe hora e medida. Em uns 80% dos e-mails e cartas de apresentação que recebi, o autor elogia o livro (maravilhoso, aventura envolvente, um futuro best-seller), a sua própria escrita (autor promissor, escrita fluente e dinâmica, estilo forte e corajoso) e até sua própria beleza (bem apessoado, elegante). Juro que li tudo isso em cartas de apresentação. Sério.

E não, escrever em terceira pessoa não significa que deixe de ser autoelogio. É só a síndrome de Pelé.

3-      Infle sua popularidade virtual com meios artificiais. Aliás, infle números de forma geral.

Pleno 2012 e tem gente que usa programinhas para ficar com milhares de seguidores no Twitter ou centenas de ‘curtir’ no Facebook – ou mesmo se dá ao trabalho de criar fakes para elogiar seu trabalho em resenhas no Skoob. Isso dificilmente engana uma editora séria e que conheça o meio virtual (embora um ingênuo possa acreditar). Sem falar no povo que apregoa ter vendido ‘milhares de exemplares’ e que seu livro independente é um ‘sucesso de vendas’.

Quer saber?

4-      Minta

Mentir é a melhor maneira de fazer os editores ignorarem o seu trabalho. Dizer que seu livro já está sendo filmado, que tem editoras (grandes) brigando por você, isso tudo dá uma preguiça editorial infinita, porque já vimos esse filme antes muitas vezes. E é sempre uma tragicomédia.

5-      Seja mal educado

Sim, tem escritor que é grosseiro com editores. Xinga, faz birra, fala mal pela frente, pelas costas e de ladinho. Todo esse esforço vale a pena pra deixar seu original descansar feliz e contente na gaveta de onde ele nunca sairá!

6-      Chute a norma culta da língua

Afinal, você não quer que o editor entenda o que você está dizendo, não é mesmo? Então, para que perder tempo procurando escrever direito. Acentuação? Parágrafo? Ponto final? Detalhes. E é verídico: recebi uma carta de apresentação que, além de erros ortográficos monstruosos, tinha mais de 20 linhas e n-e-n-h-u-m-a pontuação. Nem vírgula, nem ponto final, nada.

7-      Mande autoajuda para editora de fantasia e vice-versa

Preciso dizer mais alguma coisa?

8-      Se queime bastante com outras editoras

Editor odeia trabalhar com gente sem postura profissional. Então, quebre contratos, fale mal da editora X ou Y, aja como uma estrelinha em todos os contatos profissionais que você fizer. Editores conversam entre si, principalmente no nosso caso, que é um meio pequeno. Eu mesma sou amiga de quase todos os editores do fandom, pelo menos dos mais ativos. Sim, falamos de autores, do que fazem, do que deixam de fazer, de como se comportam.

9-       Ignore solenemente as regras que a editora estabelece para receber originais

Isso é VITAL. Imagine só, você seguir as oito regras anteriores, mas na hora H, mandar tudo certinho, do jeito que o editor pediu? Ele vai ler seu original! Então, ignore as informações que ele pede, não mande a sinopse nem seu nome completo. Esqueça de linkar seus perfis em redes sociais, mande o original em um formato bizarro. Não pode é correr esse risco!

E finalmente, depois disso tudo:

10-   Reclame MUITO no Twitter de como você manda originais e as editoras te ignoram, como elas são incompetentes de não ver o grande talento que você é.

É certeiro. Agindo assim, você nunca irá publicar um livro. Palavra de honra.

17 pensamentos em “10 formas de garantir que o editor jamais lerá seu original

  1. E tem aqueles que não pisam na bola, leem as regras e as obedecem tin tin por tin tin, mas que são ruins de doer, escrevem tão mal que até machuca os olhos. Esses também dificilmente conseguirão ser publicados e se comportarão como injustiçados metendo o pau nas panelinhas. Formarão grupinhos de ressentidos e passarão a vida xingando (muitas vezes escondidos atrás de perfis fake) os editores e mal dizendo os autores que conseguiram chegar lá.

  2. Valeu, Angelo. Eu sei que é chover no molhado, afinal só estou reforçando o bom senso. Mas pelo que ando recebendo, tem gente deixando o bom senso na gaveta…

  3. Folks, comentários estúpidos de fakes eu vou marcar como spam e apagar. Então nem tentem, porque eu tenho mais o que fazer da vida. Quem tiver algum tesão encubado pelos colunistas, vista roupinha de couro e se masturbe dançando macarena. Será mais eficiente.
    Att, Eric Novello.

  4. Recebi um texto para ilustrar. Uma história infanto-juvenil do tipo “vai ganhar prêmio”. O autor realizou a façanha de não ser publicado (já faz uns 5 anos isso!) ao decidir nunca apresentar o texto nem em concursos, nem em editoras. Preferiu contar com um “amigo” que acabara de “fundar” um selo editorial. O sujeito pegou o dinheiro dele e… puf!

    Outra forma de nunca ser publicado é escolher mal os meios de editar e divulgar seu livro, às vezes por puro medo de “dar a cara a tapa” e mostrar para um editor profissinal. Vai entender?

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