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Por Rafael Lima

Prólogo do romance Os reis do Rio, de Rafael Lima. Uma distopia passada no Rio de Janeiro que será publicada pela Editora Draco no 1º semestre de 2012:

Apesar do silêncio, o som das engrenagens do portão da Grota IV ecoou despercebido pelas vielas do bairro carioca. Era madrugada e seus moradores anestesiavam-se em sonhos merecidos.

Todos, menos um.

Com os olhos entreabertos, Michael Queiróz, o “Mic”, observava as sete muralhas em forma de homens cruzarem sem cerimônias a passagem recém-aberta por ele. Ainda decidia se sua visão era causada pelos baseados que consumira horas antes ou, simplesmente, por sua sonolência. Piscou para lubrificar a córnea e se debruçou na janela da guarita sob sua proteção para ver melhor os brutamontes, bem ao lado da entrada suspensa. 

Sua confusão era normal. Há mais de três anos guardando aquele portão, jamais vira o esquadrão de elite dando as caras em Grota IV. Na verdade, nunca soubera que ele visitara, algum dia, seu bairro.

Ficou se perguntando se sonhava. Porém, quando o grupo andou um pouco mais pela terra batida e se pôs de costas para Mic, o rapaz viu algo ameaçador demais para ser onírico: bordado de branco atrás dos coletes dos homens, o perfil de uma famosa e temida cobra-rei.

Aflito, Mic coçou a garganta. O que acontecia, afinal, naquele bairro-caverna de tão extraordinário que justificasse a presença desses sujeitos? Não gastou cinco segundos tentando adivinhar. Relaxou e largou-se no mesmo banco onde estava momentos antes, até ser despertado pelo líder do bando.

Encarou Rodney, seu companheiro de vigília, desabado no chão e amaldiçoou mais uma vez o vitiligo em seu rosto. Olhou o walk-talk, sobre uma mesa repleta de farpas, e decidiu não incomodar seu chefe. Recostou-se, jogou a aba do boné sobre o rosto e fechou os olhos.

Não contaria a ninguém, ao menos não naquele momento, sobre a presença dos homens. Sabia que, fosse qual fosse sua missão, não tardariam em cumpri-la e partir sem contratempos. Afinal, sua discrição e eficiência eram lendárias.

Assim como a sua crueldade.

Após entrarem Grota IV, o esquadrão seguiu por um beco que terminava na área B, notória pela concentração de oficinas eletroeletrônicas e mendigos. Nenhum dos homens tinha menos que um metro e oitenta e seus uniformes negros lhes conferiam uma camuflagem excelente sob a pouca luz.

Serpentearam em frente a casas de madeira e chapas de aço – poucas eram de alvenaria – e alcançaram a Praça do Ébrio. Contornaram-na. O líder do esquadrão ergueu o punho e todos pararam diante de um portal de ferro com a pintura desgastada. “Vila dos Justos” estava escrito no topo, em letras serifadas.

Após ler o nome, o líder gesticulou para que seus subordinados seguissem vila adentro. Os canos de seus P12H – rifles plasmáticos raramente vistos por aquelas bandas – foram apontados simultaneamente em várias direções, em gestos firmes de precaução.

Sem demora, chegaram ao penúltimo barraco da vila. Além, só havia mais um, colado na rocha da caverna que abrigava Grota IV. Ao ultrapassarem uma cerca de arame e pisotearem mudas de tomates, dois homens grudaram as costas nas laterais da porta. Quatro se curvaram e apontaram suas robustas armas para ela.

O coturno do líder atingiu a chapa com força. O fecho não resistiu e a porta tombou. Os sujeitos invadiram a escuridão e pressionaram um botão na altura das têmporas, acionando o infravermelho dos capacetes. As peças, de visor em forma de “V”, impediam que seus rostos fossem vistos.

A busca não seria difícil. O barraco possuía apenas dois cômodos pequenos e a chance de abrigar ameaça a combatentes tão bem treinados era praticamente nula. Sem relaxar, porém, parte deles escolheu o ambiente da direita e, o restante, o quarto em anexo. O líder permaneceu na entrada, para se certificar de que olhos curiosos não atrapalhariam suas ações.

Os homens que seguiram para a direita pararam ao ver um adolescente deitado de bruços em um sofá, com a boca aberta e o braço direito pendendo até o chão. Um deles se aproximou e lhe cutucou as costas com a coronha do rifle. Notando que o corpo franzino continuava imóvel, agachou e retirou um dispositivo do bolso. Ergueu cuidadosamente uma das pálpebras do jovem e aproximou o aparelho em forma de bastonete de sua retina. Um feixe vermelho a percorreu. Quando sumiu, uma luz laranja acendeu no dispositivo.

Não era ele.

Gemidos foram ouvidos no ambiente ao lado. O trio correu e viu que seus companheiros agarravam outro garoto, aparentemente de mesma idade do adormecido. Debatia-se como um peixe recém-fisgado e sua boca já estava coberta por uma luva grossa. Apenas suas pernas estavam livres e, com elas, o jovem tentava agredir seus oponentes. Mas só conseguiu acertar sua cômoda, fazendo canecas e outros vasilhames desbotados irem ao chão.

Ao ouvir os objetos se espatifarem, o líder do esquadrão deixou a entrada. Chegando ao cômodo, viu o adolescente quebrar o dedo de um de seus apanhadores com um chute e se espantou. Decididamente, não era um alvo dócil como os anteriores.

O combatente atacado não revidou. Quieto, pressionou o dedo ferido contra o abdômen. O líder esperou o jovem em fúria ser amordaçado, parou a alguns passos dele e lhe apontou o rifle. Antes de atirar, girou uma pequena alavanca na arma com o indicador.

O dardo partiu do cano secundário do P12H e acertou o pescoço do adolescente. Seus movimentos ficaram lentos e os membros amolecidos. Segundos depois, a inconsciência lhe abraçou.

Os homens saíram da casa e partiram da vila, um deles com o jovem nos ombros. O líder parou no quintal e, por um momento, pensou em retirar o capacete para sentir a brisa que cortava as galerias de Grota IV, ainda viva em suas memórias de infância.

Mas o desejo não durou. Afinal, aquela era nada menos que a missão de número duzentos e quarenta do mesmo tipo que, em dois anos, ele e seus homens haviam cumprido. A meta tinha sido batida e recompensas muito mais sedutoras lhes aguardavam.

Sorrindo orgulhoso, correu para se reagrupar, pois sua equipe já alcançava a Praça do Ébrio. Agora só precisava sair com ela de Grota IV e levar o adolescente à cidadela para colher os louros.

O que o Espanhol e sua equipe de cientistas malucos fariam com ele não lhe dizia respeito. Não era premiado para questionar e sim para agir. Mesmo assim, especulou o que poderia acontecer ao jovem e sentiu pena.

Mas só um pouco.

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