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Por Nazarethe Fonseca

Uma das perguntas que mais respondi ao longo dos últimos anos foi: Por que falar de vampiros? Por que os vampiros não saem de moda?

Certamente, a maioria dos leitores que apreciam livros sobre essa criatura magnífica esbarrou com o tema de forma inesperada. Conheço muitas histórias sobre como cada leitor topou com o seu primeiro vampiro e se entregou a ele de maneira incondicional, passando a ir atrás de mais material no cinema, na literatura e em HQs. Só lembrando, até poucos anos atrás o assunto era marginalizado. Autores que escreviam sobre vampiros eram vistos com certa desconfiança, pelo menos no Brasil. Se a literatura nacional em geral já não era vista com bons olhos pelos livreiros, imagine a fantástica, mesmo que contasse com boas vendas em outros países.
Com o “BUM” causado pela franquia “Crepúsculo”, a pílula do vampirismo foi dourada, no melhor sentido capitalista. O vampiro pôde sair do armário com força total junto com os seus autores e se transformou em um “assunto” que vendia muito bem. Isso coincidiu com a ascensão da literatura “Young Adult” lá fora, essa etiqueta que não é muito bem entendida aqui dentro, mas que se tornou o norte a ser seguido pelos editores na hora de comprar títulos estrangeiros e pelos livreiros na hora de arrumar suas vitrines.

O problema desse tom dourado, quase purpurinado, foi a imposição de uma história ultrarromântica, adolescente e fora dos padrões góticos com os quais o tema sempre flertara em maior ou menor intensidade, e que encontra em Anne Rice e suas crônicas vampirescas sua melhor representante, me arriscaria a dizer. A mudança provocou uma chuva de críticas dos velhos admiradores, mas, por outro lado, atraiu um público mais adolescente e também alguns adultos barbudos. Mesmo se arriscando a alterar o que seria a natureza de um vampiro, a autora da franquia conseguiu o seu sucesso.

Foi esse público que leu e releu os livros da série, acompanhou os filmes no cinema e foi atrás de outras obras semelhantes, que começou a se dizer saturado de “vampiros.” Se a roupagem adolescente e romântica foi capaz de levar a um estouro de vendas, se mostrou ineficaz na manutenção de longo prazo e desgastou, na visão de profissionais do mercado, o mito das criaturas da noite. Felizmente, a versão crepuscular nunca convenceu os fãs do vampiro tradicional, bem acostumado aos cenários sombrios e góticos.

Como diz o velho ditado popular: nem tudo que reluz é ouro, e nesse caso o que reluzia nessa franquia – pense que além da indústria de livros e filmes ela se propagou em camisetas, cartazes, sites e blogs – era o vampiro que brilhava no sol.

A palavra vampiro engloba uma gama de assuntos. Os jovens que agora estão um pouco mais sábios e maduros, digamos assim, notaram diferenças gritantes conforme foram adquirindo outras obras. O choque de perceber em outros livros a verdadeira identidade do vampiro levou ao refreamento da histeria. Os que gostaram do que viram entenderam que nem só de Crepúsculo viviam os seres da noite. Os que se desapontaram, bem, esses não eram fãs da criatura e sim do drama, e acabaram migrando para o romance mais próximo na lista de best-sellers. No lugar de caninos, penas, dragões e distopias. Coisa de adolescente.

O tema vampirismo é profundo e já foi tema de teses, investigações da igreja católica, médicos, governantes, e, olha a palavra de novo, histerias, vejam só. Algumas dessas ondas nada charmosas varreram países como a Prússia oriental em 1710, Hungria em 1725 e a Sérvia austríaca, onde gerou dois famosos casos de vampiros históricos: o de Peter Plogojowitz e de Arnold Paul. Resuminho rápido: após falecer, Peter apareceu três dias depois em sua antiga casa e pediu comida ao filho, que lhe deu. Na noite seguinte, o menino se recusou a alimentar o pai e apareceu morto pela manhã.

É um caso documentado. Também há relatos de vizinhos que sonharam com o Peter mordendo-lhes o pescoço. Existem outros casos registrados, acredite. É claro que muitos são apenas interpretações erradas sobre a morte e seus efeitos sobre o corpo em épocas em que o homem não sabia compreender o processo de decomposição, mas fica a curiosidade.

Voltando à literatura, Drácula, de Bram Stoker, é considerado a quintessência dentro do tema, porque foi ele que deu cor, forma e nome a um mito. Depois dele a palavra vampiro passou a ser associada a Drácula. Se você consegue pensar em vampiro sem passar por Anne Rice, duvido que consiga o mesmo com a obra de Stoker.

Contudo, não vamos nos afastar da questão, por que o tema vampiro é tão atraente? Brilhe ele ou não no sol, vire um punhado de cinzas ou exploda em sangue ao ser golpeado, o vampiro segue atraindo leitores e fazendo fama na TV. O seriado True Blood e seus vampiros extremamente sexuais estão aí que não me deixam mentir.

Adaptabilidade. Esta é a resposta oferecida por J. Gordon Melton em O Livro dos Vampiros, A Enciclopédia dos Mortos-Vivos. Quem já teve o prazer de folhear o livro ou ler suas 1017 páginas compreende que o mito do vampiro apresenta elementos para se adaptar a qualquer século. Mudem as ambições – juventude, riqueza, amor eterno – ou mudem os perfis psicológicos – misterioso e sombrio, romântico e adolescente – o vampiro sempre tem algo a oferecer.

Entendem por que falar deles atrai tanta atenção e, convenhamos, gera tanta polêmica? É um assunto com raízes em todas as culturas do mundo e capaz de brincar com diferentes imaginários. Cada escritor, artista ou cineasta o viu de um modo e o expressou de acordo com as influências que sofreu. Cada leitor o adequou aos seus anseios do momento. E mesmo que muitos digam que o tema já deu o que tinha que dar, o vampirismo é um assunto inerente à sociedade, seja com metáforas de cunho sexual, sob a forma de mito, ou como uma abordagem da violência e disputa pelo topo da cadeia financeira, quero dizer, alimentar.

Se a onda romântica está chegando ao fim depois de longos anos dominando o império, não tenha a menor dúvida: o vampiro logo ressurgirá de seu caixão com algo novo para mostrar. E gerará muito mais dinheiro.

3 pensamentos em “A febre do sangue: por que os vampiros não saem de moda?

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