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Por Felipe Castilho

Há um tempo venho querendo escrever um artigo para o Páginas Noturnas que tivesse como tema as ficções científicas distópicas para leitores jovens. Ou leitores jovens-adultos. Ou adolescentes. Como vocês prefiram chamá-los ou serem chamados. A verdade é que os leitores não são o tema, e sim o assunto que por tanto tempo viveu às margens da literatura. Distopias.

Para quem não está habituado ao termo: pense em um mundo perfeito. Uma utopia. O lugar quase inalcançável. O sonho que, de tão distante, já nasce marcado para não existir. Pois bem, imagine a utopia em um lado da moeda. Só imagine, pois você não poderá vê-la, de fato. Agora, vire esta moeda. Este outro lado dela, que te causa mal-estar, que você não consegue olhar direito mesmo estando em suas mãos… Esta é a Distopia.

A antítese da plenitude política e social. O pessimismo elevado à décima potência. Um não-tão-distante mundo oprimido, regido pelo totalitarismo e sem nenhum raio de esperança vindo dos céus. Como exemplos funcionam bem melhor que explicações, lembrem-se de Admirável Mundo Novo com suas castas. De 1984, com Winston e a sua amada Julia da Liga Anti-Sexo. De Laranja Mecânica, com seu leite Moloko e seus métodos ultraviolentos de reintegração a um convívio público. De Fahrenheit 451, com seus bombeiros piromaníacos e aquela América onde livros são proibidos. 

As distopias sempre mostram o pior de uma sociedade. O nosso lado ruim tão potencializado que não existe caminho para seguirmos de volta à normalidade. Aldous Huxley, George Orwell, Anthony Burgess e Ray Bradbury (que veio a falecer durante a escrita deste artigo) foram visionários e escreveram muito mais do que textos de ficção científica. Eles souberam mostrar nossas falhas muito antes delas se tornarem gritantes e irrecuperáveis. Eles falaram diretamente a mentes despreparadas, pois as distopias sempre são uma grande metáfora. E sempre podem servir como entretenimento e como alerta. E mais do que isso: eles influenciaram outros escritores, capazes de falar com maior habilidade a outra espécie de público.

Nos últimos dois anos, o mercado foi atingido por uma inflação de obras com essa temática, voltadas para o público jovem. Entre apenas algumas delas: Trilogia do Jardim Químico, de Lauren DeStefano (Editora Underworld), a coleção Destino, de Ally Condie (Editora Suma das Letras), A Linha, de Teri Hall (Novo Século Editora), a série Feios, de Scott Westerfeld e a série Delírio, de Lauren Oliver (Editora Intrínseca), a série Gone de Michael Grant (Galera Record), a coleção Maze Runner, de James Dashner (Vergara & Ribas), a série Amanhã, de John Marsden (Fundamento) e a atual queridinha de todas as listas e livrarias, a trilogia Jogos Vorazes, de Suzanne Collins (Rocco Jovens Leitores). Como eu disse, apenas algumas delas. Muitos dos títulos que batemos os olhos em livrarias e corremos para a próxima capa também podem ser uma distopia disfarçada atrás de um invólucro teen.

Confesso que precisei superar um preconceito inicial ao me aprofundar nestas novas distopias e que ainda não fui longe ao adentrar o mundo cruel reservado aos adolescentes. Sempre fui leitor de histórias pós-apocalípticas, de romances com cunho político-social, de diversos “what-happens-if..?” da vida. Espero um dia também poder entregar a alguém uma obra significativa na área. Mas, enquanto isso, vou conhecendo o ramo.

O que podemos perceber logo de cara em uma destas distopias YA (Young Adult, siglazinha que todos andam vendo muito por aí, ultimamente) é que o Amor é a ideia central destas tramas, quase que de forma unânime. Se nas velhas distopias a liberdade é o sonho utópico de qualquer protagonista, nestas, o amor é a meta. Tudo bem, amar a quem bem entendemos não deixa de ser uma forma de liberdade. Mas a velha fórmula “A ama B, mas também ama C” foi aplicada nas distopias do “agora”. Casamento forçado, extinção do amor, infelicidade estética. Tudo isso anda sendo abordado nos romances atuais. O amor sempre sendo a força motriz.

Voltando à velha escola. Em 1984, podemos dizer que Winston se deu ao luxo de amar uma única pessoa, Julia, o que já era muito. E é esse amor que move a areia sob os pés da trama. Em Fahrenheit 451, não seria o inocente amor por Clarisse que desperta Montag para a consciência?

O amor sempre esteve aí, tentando sobreviver sob céus cor de chumbo. Só que agora ele é o protagonista.

Superadas as barreiras pessoais, li Jogos Vorazes para saber o motivo da febre. E em seguida Em Chamas (o melhor da trilogia, na minha opinião) e A Esperança. Encontram-se referências diretas e subliminares a Bradbury e Orwell. Katniss é uma personagem interessante. O presidente Snow é um vilão de verdade – o que é raro nas distopias clássicas, pois nas clássicas, o perigo sempre é etéreo. A nação ao lado. O sistema. O vizinho que dá com a língua nos dentes. Nas modernas, o mal sempre tem nome e endereço.

Em Jogos Vorazes, a história é bem construída e toma rumos interessantes. Faz pensar, principalmente. E quando vemos os números que Suzanne Collins alcançou com sua trilogia, me pergunto em quantos destes leitores a fagulha do questionamento foi acesa. Me animo ao pensar em uma legião de garotos discutindo sobre o Pão e Circo, manipulação de massas, centralização de poder…

Ok, eu ainda não me aprofundei em todas estas distopias YA que foram citadas lá em cima. Mas me pergunto: há como fazer uma distopia para jovens sem cair no lance do amor proibido?

Sim, perguntem a Cory Doctorow.

O homem é colunista de um sem-número de revistas especializadas em informática e tecnologia, já foi diretor da Electronic Frontier Foundation (organização que defende a liberdade de expressão na rede) e também é um dos editores do Boing Boing (site que vale a visita, se você ainda não o conhece). Doctorow disparou um petardo chamado Pequeno Irmão (por aqui, Galera Record), que é uma obra-prima. Dialoga diretamente com o público tecno-geek, além de ser uma trama que nos dá vontade de perder uns dez, quinze ou vinte anos das costas e ser um adolescente rebelde e com causa. O título faz referência direta ao Grande Irmão de 1984, e o romance não mede palavras na hora de esculhambar com medidas governamentais de segurança. Marcus, o protagonista, usa uma rede fantasma de internet, navegando através de seu X-Box hackeado. Ele burla sistemas, engana autoridades, clona cartões de créditos. Na rede, vive sob o pseudônimo de “w1n5t0n”, nos brindando com mais uma referência de Orwell nesta brincadeira.

Nesta trama jovem, temos uma velha distopia com roupagem moderna. Cory Doctorow não tem tempo para romances, e também não deixa rastros para continuações. Se você não vibrar com as escapadas estratégicas de Marcus (ou w1n5t0n), então você deve ter perdido suas emoções em algum mundo onde a adrenalina foi proibida por lei. Recomendo, ainda mais depois de saber que o autor disponibiliza em seu site este e muitos outros livros de graça, para download. Em inglês, mas já é um belo começo.

Mas de modo geral, o negócio parece ser: se for para existir a tendências de vampiros, lobisomens, anjos, imortais e magos apaixonados, porque não uma moda de revolucionários apaixonados? De garotos e garotas que despertam para a luta contra a máquina do governo somente para serem capazes de decidir o próprio destino? Não vejo porque a capacidade de distinguir o que é certo e errado deva ser para poucos. Não querendo dizer que apenas as distopias tenham o poder de causar esse debate, mas porque não uma inflação de histórias que coloquem assuntos polêmicos em cheque?

Como disse no começo, Ray Bradbury faleceu durante a produção deste artigo. Nada me deixaria mais feliz do que saber que alguém caiu de cabeça em seu universo, tendo Suzanne Collins como porta de entrada. Se hoje eu admiro A Queda da Casa de Usher, tenho que agradecer ao autor que um dia me chutou para dentro de Rose Red e da casa do terror e do suspense. Collins, Hall, Doctorow, Westerfeld, Condie… todos eles estão prestando serviços a uma geração que precisa aprender a questionar. Chutando leitores para dentro de simuladores de futuros prováveis, caso a humanidade não desperte por completo.

E que venha a hype das distopias. Que por meio delas, os clássicos do “gênero” também virem moda. Orwell, Huxley, Burgess, e agora Bradbury… Eles se foram, mas precisam ser lidos. Não importa se for por embalo, curiosidade, moda passageira ou moda duradoura. Assim como os livros de Fahrenheit 451, nós queimamos rápido, e na mesma temperatura que o papel em uma fornalha.

Nos transmutamos no legado de quem nos alertou primeiro.

Decorando livros, nos tornando livros.

em memória de Ray Bradbury (1920-2012)

Um pensamento em “Distopias modernas como porta de entrada para novos leitores

  1. Uou, excelente artigo-resenha-in memoriam. Parabéns pro Felipe e sua vasta bibliografia e conhecimento, e também parabéns por sua articulação. Só de ler este artigo deu (muita) vontade de conhecer mais os clássicos, e (por que não) certa vergonha literária por ainda não conhecê-los todos.
    E sim, nos tornar livros, tornando assim também a realidade em um grande livro a ser escrito por seres cada vez mais pensantes, sem importar sua origem, ocupacão ou classe social.
    (e aqui está a minha utopia. Quantas outras distopias poderiam então surgir de seu avesso?)

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