Home

Por Erick Santos

O formato mp3 e a liberdade de escolha

Diante de tantas teorias conspiratórias sobre o que significará o advento dos e-books e como isso irá impactar os hábitos de leitura (e de comércio) de nosso país, tendo a ignorar a paranoia e me concentrar em duas coisas: quero saber como proporcionar a experiência de uma leitura agradável dentro do suporte digital e entender a fundo o modelo de negócio da distribuição digital antes de entrar no bonde. Ou no ônibus.

Explico essa coisa de transporte coletivo: já ouvi de grandes empresas que pretendem ser protagonistas do mercado de e-books que ele é como um ônibus que vem em nossa direção. Nós podemos escolher entre estarmos dentro dele ou ficarmos na sua frente e sermos atropelados. Sem entrar no mérito da piada ou da constatação óbvia do que está ocorrendo, o que os editores têm de vantagem é saber o que aconteceu com o mercado da música ao ignorar as tendências. 

O surgimento de programas de troca de arquivos como o Napster mostrou que o novo formato da indústria da música seria a liberdade de escolher quais músicas ouvir. Poderíamos fugir dos singles, das músicas de trabalho lançadas com videoclipes, ou dos álbuns que nos obrigavam a engolir faixas sem graça por conta de uma ou outra música de nosso interesse.

A discussão sobre a pirataria ocupou o palco principal, com diversas campanhas sobre como ela destruiria o emprego de quem produzia cultura (algo que também afetou os videogames, os livros acadêmicos etc.). A popularização do formato digital do MP3 mostrou que acima dos fetiches de capas de disco e encartes estava o conteúdo. A música era o elemento mais importante e poderia ser distribuída em pequenos pedaços como uma pizza (metáfora que me agrada mais), não shows completos ou compilações conceituais, mas aos poucos. Nós poderíamos (e já podemos) experimentar um pedaço antes de decidir levar tudo pra casa e correr o risco de se arrepender depois. Foi daí que vieram iniciativas como a da Apple com o iTunes, a loja de música que vendia faixa a faixa por 1 dólar cada, e tocadores de música portáteis como o iPod. Estava provado que havia sim outros caminhos para a distribuição musical do futuro.

O problema é que os detentores dos direitos dos artistas e bandas demoraram muito a entender isso. A resistência que a Apple enfrentou dos editores musicais (as gravadoras), e os casos em que os próprios autores musicais processaram programas como o Napster, mostraram que ninguém queria entender que a distribuição digital facilitaria o acesso e a divulgação de seus conteúdos, e que a tal pirataria (ou o compartilhamento de arquivos) já vinha ajudando muitos artistas a atingirem seus públicos.

Disponibilidade, outra palavra-chave.

Acredito que o primeiro passo para pensarmos a edição de conteúdo digital é disponibilizarmos os nossos conteúdos (o que fica impresso no papel e que é o que diferencia os livros de revistas, anotações ou álbuns de figurinhas de prêmios, aqueles com que eu nunca ganhei nada) em todos os locais onde os leitores queiram consumi-los. Então que venham os audiolivros, os eletronicolivros e toda a sorte de alguma-coisa-livros que sirvam para levar os textos a quem quiser lê-los. E é esse o nosso papel como editores e não adianta temermos empréstimos de livros, fotocópias e digitalizações de títulos que nunca foram ao formato digital. Essas reproduções alcançaram mais leitores (o principal intuito de um escritor e de um editor que queira resultados a longo prazo) do que as frágeis e viciadas estruturas de distribuição, que tirando um ou outro varejista mais visionário, ainda se mantêm na era do best-seller.

Isso nos leva ao debate do espaço de exposição. Com pouco espaço e escassos recursos para lidar com muitos fornecedores, os livreiros se concentram os livreiros naquilo que terá maior potencial comercial, um retorno mais imediato. No campo das vendas virtuais, esses espaços mudam, e as ferramentas de busca passam a ser os olhos do comprador e o bom papo do vendedor, tudo de uma só vez.

Daí a ótima possibilidade que a distribuição digital oferece. Se o conteúdo estiver acessível a cada pessoa que possua um celular, que possua um e-reader com preço acessível ou mesmo um tablet com seus preços nada acessíveis, um autor que acaba de ser publicado tem exposição potencial muito maior que qualquer autor de livraria (mesmo os best-sellers). Afinal são mais de 20 milhões de smartphones no Brasil, apesar do número de tablets e e-readers ainda seja muito menor. A verdade sobre esses números e esperançosas expectativas só poderão ser provados de fato após o final de 2012, quando ocorrerá a chegada dos grandes players em nosso país: Apple, Amazon, Google, Kobo etc.

Livros nas lojas de “1,99”.

Mesmo que o Brasil possua condições de distribuição e uma base consumidora para livros digitais (pessoas com acesso aos conteúdos digitais, seja por PCs, tablets, celulares, e-readers e, em breve, em videogames) semelhantes à de um mercado maduro com os EUA, o que acontecerá com os autores independentes ou ainda ligados a pequenas editoras?

O sonho eterno é vender muito de uma hora para outra. Para isso, bastaria apenas baixar o preço de um romance para R$ 1,00 e conquistar o maior público possível como Amanda Hocking conseguiu. Acontece que não é tão simples assim. O que aconteceu com ela é o mesmo que acontece com jogadores de futebol que dão certo, são necessárias muitas experiências frustradas para que uma funcione. O preço de um livro não pode ser sempre tão barato que precise vender muito para compensar a produção. Isso fatalmente levaria a produções cada vez menos custosas, autores mal remunerados e todo o potencial da grande distribuição ira pelo ralo. Mas nada impede que autores independentes e pequenas editoras consigam muito mais visibilidade do que o mercado impresso lhes oferece. Só não vale pensar que esse é o segredo, Amanda Hocking deve ter feito algo certo (um bom livro para o seu público leitor, principalmente) senão não conseguiria tanto êxito.

Pensando na divulgação e em conquistar um voto de confiança dos leitores que querem experimentar algo legal sem grandes riscos, criamos a coleção Contos do Dragão. A estratégia foi mantermos um preço básico de 1 dólar (ou R$ 2,99 no Brasil) e vendermos contos avulsos já publicados em nossas coletâneas e também inéditos. O sucesso da coleção tem mostrado que não há preconceito com o formato entre os brasileiros, e que a disponibilidade, quando unida a uma edição cuidadosa, pode ser a porta de entrada para romances e mesmo para a venda de livros impressos. A própria Amazon sempre martela que a venda de e-books ajuda na venda dos impressos. A única coisa que posso dizer pela experiência real que temos é que ela não atrapalha, só complementa. Os produtos são diferentes e têm sido acessados por públicos diferentes. Quem quiser uma edição para manter em sua estante com carinho irá atrás do papel. O importante é lembrar que ambos são apenas embalagens diferentes para esse conjunto de palavras e imagens que chamamos de livros.

A nova relação entre autores e editores

Dizem que em breve os editores precisarão reforçar (em alguns casos retomar) seu papel de curadores de conteúdo. Outro fator é o consumidor entender a importância de sua participação se quisermos um mercado de literatura de gênero profissionalizado e centrado na criação, não na venda de produtos.

As editoras têm se preocupado com os seus autores best-sellers criando conteúdo para ser publicado diretamente nos grandes varejistas, como a Amazon em seu sistema Kindle Direct Publishing, por exemplo, terceirizando o processo editorial e agindo eles mesmos como autores-editores. Em grande maioria, são autores muito lucrativos, como Dan Brown.

Como editor, quero mesmo que os autores passem a ser mais valorizados em nosso mercado, falando especificamente da literatura de gênero, o meu campo de atuação. Quero poder oferecer adiantamentos e contratos que os permitam ser autores, acima de tudo. Além disso, tenho como visão editorial trazer autores que construam um catálogo variado, pois mesmo quando se trabalha um nicho há muitos caminhos que podemos seguir. Quanto mais rápido deixarmos de ter autores amadores que escrevem nos seus tempos livres para termos profissionais que se dedicam a isso, maior será o conteúdo interessante à disposição de um público que já tem e-readers, celulares etc. e tem saciado sua fome por coisas legais comprando de fora, em edições de Portugal, em Inglês, ou mesmo lendo traduções de fãs.

Fronteiras cada vez mais tênues

Por falar em traduções, não existe mais o longínquo sonho de se publicar lá fora. Ele virou uma realidade, é simples. Os profissionais brasileiros serão exportados quando nós quisermos. Em vez de um agente oferecendo nossos conteúdos para outros países em feiras, nós, os editores que apostamos em obras brasileiras, vamos traduzir esses títulos e alcançar todos os mercados do mundo. Virtualmente não há limites, as barreiras físicas foram derrubadas e após um pouco de esforço todos serão lidos por leitores no mundo inteiro. Se não estivermos seguros com nossas traduções, temos ainda os mercados lusófonos na Europa (Portugal), África e Ásia. E nunca podemos esquecer que há brasileiros no mundo inteiro.

O ônibus já chegou e isso implica numa mudança de posicionamento de todo o mercado. Precisamos ter a consciência de que só faremos parte da vida de leitores se produzirmos conteúdo que seja acima de tudo bem editado e honesto. A fórmula da sobrevivência é possuir uma produção constante e regular, e que possua qualidade na mesma medida, pois uma reputação que se constrói durante anos se destrói bem mais rápido.

Todos estão otimistas com o Brasil. Ouvi uma americana dizer que o Brasil é o lugar para se estar, por conta de nossa economia emergente e do momento dentro do contexto mundial. Os e-books aumentarão muito o nosso alcance, sim. Venderemos para todo o mundo, traduziremos as nossas obras diretamente e alcançaremos públicos nunca imaginados. Mas precisaremos entender todos os novos trâmites de distribuição, aqui dentro e lá fora, e oferecer e-books tão bons de ler quanto os livros impressos, sem perder de vista os preços adequados para uma cadeia de produção remunerada adequadamente. Essas são algumas das paradas do ônibus e, sem oba-oba, acho que ele pode nos levar a passeios novos e interessantes.

3 pensamentos em “E-books no Brasil: O livro do futuro é o conteúdo

  1. Eu estou muito esperançoso quanto à vinda da Amazon e de novos e-readers para o Brasil. Em minha opinião, o e-books são complementares aos livros físicos e um não vive sem o outro — mesmo com o mp3 os artistas ainda vendem muitos CDs e assim deve acontecer com os livros. Espero que só traga qualidade e boas histórias a popularização da leitura eletrônica, e também a possibilidade da profissão escritor, a qual só consegue ser a única apenas de uma pequeno nicho de autores, que muitas vezes não conseguem subsistir escrevendo apenas ficção para publicação livreira (física ou não, agora), recorrendo sempre à periódica.

  2. Um aspecto que eu acho muito interessante do e-book e não tem sido muito discutido é o fim do “livro esgotado”. Como é muito barato manter o arquivo do livro num servidor, deve compensar manter o livro “no catálogo” mesmo que esteja vendendo poucos exemplares por ano.

  3. Pingback: E-books: formatos são embalagens, o valor está no conteúdo | Webinsider

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s