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Por Eric Novello

Eu já havia lançado dois livros em papel – um de edição paga, o outro por vias tradicionais – quando os blogs começaram a perder sua cara de diário virtual e passaram a plataformas de divulgação. Quase dez anos atrás, o grande debate ainda era entender por que as pessoas decidiriam expor suas vidas na internet ou que graça teria acompanhar a vida de outrem, um pensamento bastante datado pós-consolidação das redes sociais. Essa exposição que nasceu sem foco foi se segmentando e se especializando, criando novos perfis de blogueiros em busca de nichos a se explorar. Em vez de falar o que tinha preparado no café da manhã, o dono do blog dava dicas de culinária, contava suas viagens, escrevia críticas de cinema, comentava o lançamento de um novo CD, e por aí vai.

A literatura, como esperado, não deixou passar em branco o retorno da língua escrita ao palco principal da comunicação, e alguns autores em formação começaram a deixar seus textos online, usando os blogs como vitrines. Para divulgar meu segundo romance, por exemplo, decidi criar uma série de contos com o mesmo protagonista do livro, e a série acabou fazendo mais sucesso que o livro. Na mesma época, passei a acompanhar os autores da minha geração, muitos ainda dando os primeiros passos como eu, e prestar mais atenção no debate literário que me cercava. O mais relevante para esse texto sendo o que cunhou a expressão “autor de internet”.

De repente, todo mundo tinha voz. Enquanto alguns correram para se defender da terrível acusação e lembrar que a internet era apenas uma plataforma (papel vs. e-book, alguém?), outros usaram os blogs como espaço de marketing e divulgação e estão hoje entre o time respeitado de autores de literatura brasileira. 

Na literatura especulativa, ainda muito distante do respeito conquistado pelo mainstream, houve um movimento parecido que abordei no texto “As coletâneas mataram os blogs de contos?”. No caso, não foi um plano de carreira ou o pensamento de se projetar na internet para ganhar o papel, e sim uma mera transferência de portfólio. O surgimento de editoras independentes, embora incipientes em seus projetos de dominação mundial, inaugurou uma nova etapa, na qual podemos encontrar de janeiro a janeiro coletâneas abertas para envio de material. E que fique claro: NÃO me refiro a editoras que cobram dinheiro do autor.

Em um primeiro instante, o movimento nessa direção levou a um escoamento do material engavetado, mas logo se transformou em estímulo à produção, entusiasmando muita gente que nunca havia publicado a escrever alguma coisa, mostrar seu texto para alguém além da mãe e do amigo da escola. Se nos tempos do autor de blog houve certa birra com os novatos, um “não diga que é meu igual se só publica na internet,” na era das coletâneas, os editores e autores de literatura especulativa souberam tomar outro rumo e abraçar esses entusiastas, em uma atitude que julgo positiva. Sem ingenuidade, o ato serviu tanto para ampliar um grupo pequeno e claustrofóbico, quanto para cultivar um público potencial de autores-leitores e, portanto, consumidores.

Alguns autores com mais tempo de estrada começaram a assumir o papel de organizadores de coletâneas, dividindo as responsabilidades com os editores, muitas vezes exércitos de um homem só. Outros seguiram investindo nos contos. Mas boa parte das vagas passou a ser ocupada por autores novatos que enviavam seu material para as seleções. Em uma das séries de literatura especulativa que organizo, se no primeiro volume tive 80% de autores já publicados, no terceiro a percentagem se inverteu.

Assim, mais do que uma janela de visibilidade, as coletâneas passaram a ser uma espécie de oficina de escrita em que o aprendizado acontece em paralelo ao processo de edição. Para muitos, esse tem sido o primeiro contato com a opinião de um profissional, seja um editor, revisor ou copidesque. Em diferentes camadas, cada editor e organizador estabelece seus filtros e critérios, o que gera um material bastante heterogêneo, mas a ajuda aos autores selecionados tem sido um ponto comum.

O que acontece hoje, e talvez poucos percebam, é que a literatura especulativa brasileira, por meio de suas editoras independentes, assumiu para si o papel de porta de entrada para o mundo da literatura, com o compromisso mezzo sonhador mezzo mercadológico de não largar essas pessoas a esmo e ajudá-las a seguirem em frente, nem que seja pelo louvável instinto de competição. Estamos criando uma geração de contistas de peso e, embora seja difícil prever os efeitos disso no futuro, estou certo de que serão positivos. Se muitos desistirem no caminho, ao menos teremos um leitor consciente da máquina por trás de uma edição. E um leitor consciente é um filtro mais arguto.

É claro que existe o outro lado da moeda e não podemos nos acomodar. É importante notar que todo esse novo espaço existe apenas no cenário “indie” e que o jogo continua duro quando falamos de grandes editoras, com exceções contadas nos dedos. Não podemos nos dar por satisfeitos com o quatro atual. Devemos entendê-lo e termos visão de futuro, pensando os próximos passos a serem dados.

Aos autores, cabe investir em seus textos, leituras, oficinas e outras ferramentas disponíveis. Muito importante também é que olhem para os lados e saibam o que está acontecendo. Descubram outros autores, busquem afinidades, acompanhem sua geração, entrem nos debates, comentem, divulguem.

Aos editores, é preciso investir em qualidade, não só no aprimoramento do autor, mas na própria estrutura de produção. A situação de uma editora independente é de muito pouco dinheiro, eu sei bem, mas um bom revisor é figura essencial para se conquistar mais vendas e respeito. Não há boa história que encante em um livro cheio de erros.

Para o leitor, não interessa esse discurso de formação. Ao ler o livro, ele quer encontrar um material que valha o seu dinheiro. Se as críticas se diluiriam em outras searas, na literatura especulativa, que já sofre preconceitos de todos os lados, elas ganhariam eco.

Chegando ao fim, vale pensar que a tendência das coletâneas é parte de um ecossistema mais amplo, e que devemos sempre pensar formas de melhorá-lo. Sites de críticas, e-zines, sites de contos; vários modelos que já foram foco de nossa atenção desapareceram ou se esvaziaram quando os autores transferiram seu selo de independentes para as editoras.  Se não houve um total esvaziamento opinativo, isso se deve aos podcasts. Demanda eu sei que existe, oferta também. Falta alguém com vontade de executar esse resgate.

Para encerrar de fato, deixo duas perguntas no ar:

1. Como fugir de um cenário em que o excesso de coletâneas mine o trabalho desenvolvido até agora?

2. Como estimular também uma nova geração de romancistas e contistas que publiquem livros-solo com coesão e identidade?

Você, leitor, provavelmente tem um par de perguntas a acrescentar nessa lista, e espero que debatendo juntos, consigamos descobrir as respostas.

3 pensamentos em “Coletâneas de gênero: a oficina da ficção especulativa

  1. Hmm, não sei se entendi completamente. Você está, ao mesmo tempo, elogiando as coletâneas de contos de ficção especulativa ao mesmo tempo que teme que elas “minem” o “trabalho desenvolvido até agora”? Que trabalho seria esse? O de expandir o alcance desse tipo de literatura, na internet? Ou que se tornem a regra e os livros-solo, uma exceção?
    Eu particularmente abraço com muito carinho tanto o conto quanto um romance, e acho que haver mais coletâneas de contos ou não é uma questão de momento no amadurecimento dessa ficção especulativa nacional. Sou uma defensora ferrenha do conto, aliás. Sinto que muitas vezes ele é subestimado.
    Quanto à publicação de livros-solo (sejam eles romances ou uma coletânea de contos de um único autor), acho que, talvez, também falte um pouquinho de fé das editoras. Afinal, é sempre um risco lançar um livro — e um livro com múltiplos autores é mais fácil de agradar a diferentes gostos e, portanto, gerar mais lucro. Um único autor é um “risco” — não digo, obviamente, que não vale a pena, mas entendo o problema.
    Acho ótimo que as coletâneas de contos continuem saindo, (como eu imagino que você também), porque, como já mencionaste, é o primeiro contato que muitos escritores amadores têm com editores e o público em geral — é ainda uma experiência, o terreno não é tão firme assim. Acho completamente válido esse tipo de abordagem.
    Li outro artigo recentemente (publicado na Revista Fantástica) que fala de “jovens afoitos” no meio literário, procurando publicar freneticamente, o que, segundo o artigo, traz uma leva de de histórias “mal contadas”, com capas mais “bonitas” que seus conteúdos. Ao longo do artigo, o autor mostrava exatamente isso: como ficou mais fácil “virar” escritor, graças à blogosfera e ao “boom” literário, com editoras independentes — e mesmo as tradicionais, um pouquinho mais abertas à essa faceta do mercado.
    Por mais fantástico que seja essa abertura, a maravilha do advento da blogosfera, a possibilidade de expôr seu material e sua opinião, a tendência natural das coisas é se “oficializarem” — saírem do indie para o tradicional. Afinal, aquele que não quer que sua menina-dos-olhos (a.k.a a ficção de gênero) se torne “mainstream”, que atire a primeira pedra.
    Na minha opinião, a questão é: o fato de haver maior aceitação (e não uma “mainstreamização”, apenas uma ‘aversão diminuída’) significa que os meios independentes ligados a esse tipo de literatura devem ser abandonados? Isso é que não faz o menor sentido para mim.
    Mas, agora que eu vi que eu escrevi demais, eu me calo. =X

  2. Pra mim, que tenho comprado algumas e lido outras dessas coletâneas, o bom trabalho está sendo feito. O que falta? Mais leitores, certamente. Sem leitores não adianta virar matéria, cair na mídia, gerar um hypezinho que tudo isso morre logo.

    Mas o que tenho visto é o trabalho sério de editores e autores em busca de uma excelência e esse me parece ser o único caminho.

    Quanto à oposição blogs x coletâneas, acho curioso penar nisso porque o trabalho de criação narrativa e poética que eu desenvolvo na iinternet desde 1996 não tem e provavelmente nunca terá espaço no papel.
    Não encontrei nenhuma editora ou coletânea que pudesse se interessar (ou que apenas entendesse ou visse com simpatia!) pelas possiblidades de outras formas de texto construídas a partir da internet.

    Para tentar algum espaço nessas coletâneas tive que ‘encaretar’ meu texto e de certa maneira ignorar minhas pesquisas narrativo/poéticas desenvolvidas na web (por exemplo: http://vidareal.wordpress.com )

    Claro que sou um caso específico, mas pra mim fica a sensação boa de que: já que não estou no circuito/mercado/wathever sou livre pra continuar experimentando.

  3. Também não entendi a preocupação com o “excesso de coletâneas”, ainda mais se você explicitamente exclui as que “cobram dinheiro do autor”. Coletâneas temáticas são comuns na literatura de gênero de qualquer parte do mundo, e no Brasil elas também suprem a ausência das revistas mensais de fantasia e ficção científica (no fundo, antologias periódicas) que existem em outros mercados. E também não vejo que elas “tomem o lugar” dos livros-solo, que não são necessariamente melhores nem piores, mas exigem um esforço mais sistemático, para o qual nem todos os autores têm maturidade ou disponibilidade de tempo.

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