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Por Giulia Moon

Kaori e o samurai sem braço é um romance escrito e ilustrado por Giulia Moon. Essa aventura solo se passa entre os livros 1 e 2 da série e será lançado dia 18/08, às 18 horas, na Bienal de São Paulo, no estande da editora Giz. Abaixo você confere um trecho do 1º capítulo do livro.

1. A dama perfumada visita o amigo samurai

São Paulo, 2011

Certas aventuras se iniciam de repente, sem aviso. Alguém puxa um fiozinho de pensamento, de lembranças, e um mundo inteiro surge à tona, na voz de alguém muito especial. Foi assim naquela noite.

Ela era uma vampira de quase quatrocentos anos, mas tinha a aparência de uma adolescente oriental de aspecto frágil. Longos cabelos negros caíam às suas costas. Um rosto suave de pele pálida emoldurava os lábios carnudos. Os grandes olhos amendoados eram límpidos e ingênuos na maior parte do tempo, mas podiam se tornar perigosos num instante, transformando-se num arrepiante olhar sanguíneo – característica de desmortos antigos e poderosos. Porém, acima de tudo, havia nela algo que a tornava diferente de todas as outras, vampiras ou não. O seu corpo exalava uma fragrância natural única, deliciosa, que despertava nos homens, e em algumas mulheres, desejos ardentes inconfessáveis. 

Não era estranho, portanto, que o seu nome, composto por um único ideograma, significasse perfume, em japonês. Sim. Kaori era um nome simples, que simbolizava tudo o que ela era: uma menina com perfume de mulher.

Naquela noite, num recanto agradável da Granja Viana, Kaori estacionava, apressada, o seu Palio vermelho na área destinada aos visitantes. Ao abrir a porta do carro, ela olhou para o alto por um instante. O sorriso da lua minguante parecia triste esta noite. Ou era ela que o enxergava assim? Com um menear de cabeça, a garota afastou os pensamentos sombrios, junto com a mecha de cabelos que jogou por sobre o ombro desnudo. Ajeitando o vestido, desceu do veículo, pisando com leveza nos pedriscos que cobriam o caminho.

Ao chegar à varanda que contornava o casarão, deu com o mordomo vampiro vindo ao seu encontro com passinhos apressados. A figura magra e empertigada, metida dentro do sóbrio uniforme cinza, abriu um sorriso cordial.

– Seja bem-vinda, senhorita – disse o serviçal com uma mesura, as suas maneiras ocidentais já completamente absorvidas pelos costumes do patrão japonês. – Senhor Takezo não a esperava hoje.

– E eu não esperava voltar aqui tão cedo, Jorge – respondeu ela, seguindo-o até a sala arejada do casarão. – Mas o que aconteceu…

– Sim – concordou o mordomo. – Uma coisa terrível.

Sobre a lareira imponente, encontrava-se exposto um belo par de sabres japoneses, as famosas katanas do dono da casa. À sua frente, localizava-se o sofá de couro negro, onde a vampira se instalou com um movimento felino, os olhos fixos no ikebana que enfeitava a mesa próxima. Eram flores de lisianto e orquídeas num arranjo de perfeito equilíbrio. Mas as pétalas estavam amareladas, um indício de que Takezo fizera o arranjo dias atrás,  provavelmente antes da noite fatídica. E não tivera tempo – ou ânimo – para se dedicar a atividades relaxantes como o ikebana depois disso.

– Gostaria de uma bebida? – indagou o mordomo. – Um copo de Iki-Iki?

Iki-Iki era um alimento para vampiros feito de sangue animal, produzido pelo próprio Takezo. Um bom substituto, barato e de fácil acesso, para o sangue humano. Kaori sorriu. Obter um pouco de alimento autêntico, vivo e palpitante, poderia ser um problema para desmortos desajeitados que proliferavam nos tempos atuais. Não para ela.

– Não, obrigada. – A língua da vampira percorreu de leve os lábios rubros, brilhantes como cerejas ao marasquino. – Já fiz um lanchinho antes de vir para cá.

O serviçal respondeu com ar sóbrio.

– Oh, entendo… A senhorita preferiu algo mais natural para o desjejum.

– Isso mesmo, Jorge.

– O senhor Takezo virá num instante – disse o mordomo ao deixar a sala. – Por favor, sinta-se à vontade para me chamar, se precisar de algo.

Enquanto aguardava pelo dono da casa, Kaori retirou o espelhinho da bolsa e examinou o rosto. A maquiagem estava impecável, como sempre. Cruzou as pernas e ajeitou o vestido purpúreo de seda bordada, onde uma fenda ousada exibia a sua coxa esquerda. Ali reinava, absoluta, a vívida tatuagem de um dragão oriental vermelho, que costumava produzir forte impacto em quem a vislumbrava.

Nesse momento, uma voz grossa soou acima dela.

– Não se preocupe, Kaori-dono, você está perfeita.

Kaori olhou para cima. E deu com Takezo inclinado sobre ela, as duas mãos pousadas no encosto do sofá. Kaori estremeceu. O sorriso paternal do amigo trouxera de volta à memória o riso irônico de um outro samurai de rosto duro e curtido pelo sol. Takezo a fitou com olhos inquiridores. Ela sorriu, tranquilizando-o.

– Gentil como sempre, Takezo-san.

– E você, bela e desejável como sempre – respondeu o samurai.

– Aliás, não consigo imaginá-la de outro modo.

– Não? – Kaori roçou a sua mão na dele. – Saiba, Takezo-san, que já fui uma kyuketsuki maltrapilha, que se arrastava em buracos escuros da velha Edo.

– Mesmo sem os adereços da vaidade humana – respondeu ele – tenho certeza que você sempre foi e será belíssima, minha amiga.

O homem de ombros largos e cabelos levemente grisalhos, atados num rabo de cavalo, deu a volta ao sofá enquanto Kaori o observava. Ele estava todo de negro, com uma camisa de gola de padre e calças largas confortáveis. Quando ele se sentou ao seu lado, Kaori sentiu no ar uma agradável fragrância masculina, levemente picante. Para todos os efeitos, Takezo parecia um humano quarentão ikemen. Mas era um guerreiro antigo e poderoso, um líder de grande influência entre os vampiros. Ou, para os humanos que nem desconfiavam da sua verdadeira identidade, um empresário respeitado e bem relacionado.

– Soube que a situação no Japão é grave – disse a garota. – Tem notícias de lá?

– Acabei de falar com os meus contatos – informou o samurai. – Estão contabilizando mais de dez mil mortos. Cidades inteiras desapareceram sob as águas do tsunami que varreu o litoral nordeste após o terremoto.

E a ameaça de um grave acidente nuclear na usina de Fukushima é cada vez mais real. Estamos reunindo os sobrenaturais aliados para patrulharem a zona de destruição e arrecadar auxílio para os refugiados. E também para controlar os bakemonos8 mal intencionados que rondam os acampamentos dos humanos, atraídos pelo cheiro de sangue e sofrimento.

– E o IBEFF? – perguntou Kaori. – Deve estar se mexendo, também.

– Parece que as equipes do IBEFF estão lá, trabalhando numa ação conjunta com a organização asiática de pesquisa fantástica. Mesmo assim, uma parte da fauna sobrenatural local foi extinta. Criaturas milenares foram varridas da face da terra, junto com os últimos humanos que ainda se lembravam delas.

Takezo se calou. Após alguns instantes, Kaori rompeu o silêncio.

– Você já fez tudo o que podia, Takezo-san. Deve descansar um pouco. O cansaço nos torna vulneráveis.

– Eu sei, Kaori-dono – murmurou Takezo. – Saberei me cuidar.

Deixe tudo por minha conta e não se preocupe com nada. Na verdade, eu ficaria mais tranquilo se você permanecesse em segurança no Rio de Janeiro, distraindo-se com o seu brinquedo…

Kaori achou engraçado. “O seu brinquedo”, dissera o amigo. Como se Yoshi, o apetitoso garoto de programa que recolhera na praia de Copacabana, pudesse pertencer a alguém.

– Yoshi voltou para o Japão, dois dias atrás – ela respondeu.

Takezo arqueou a sobrancelha espessa.

– É mesmo?

A vampira levantou-se e foi para a varanda. Os seus olhos sensíveis perceberam, em meio às sombras, os movimentos furtivos dos guardiões de Takezo a patrulharem o jardim.

– Yoshi conhece algumas garotas das áreas atingidas – comentou.

– E foi verificar pessoalmente se estão bem. Acha que poderá ser útil por lá com os poderes sobrenaturais que adquiriu.

– Então ele estará de volta em breve.

– Quem sabe? – Kaori sorriu.

Takezo, na sala, manteve-se em silêncio por alguns instantes. Depois, murmurou:

– Também vou para o Japão. O meu jato me levará amanhã.

Kaori esperou alguns instantes antes de falar.

– Acha que é uma medida prudente? – disse.

– Não. Mas não posso fazer muito pelos meus compatriotas, estando tão longe.

– E estando mais perto… Poderá fazer mais? – ela murmurou.

Imediatamente, ela sentiu o olhar de Takezo pesar sobre as suas costas.

– Parece que confia mais em um moleque como Yoshi do que em mim, Kaori-dono. – A voz dele tornara-se dura. – De qualquer forma, a minha decisão já está tomada.

Era um mau sinal. Takezo mostrava-se hostil, impaciente, fora do seu normal. A kyuketsuki voltou para dentro da sala e parou à frente dele. E sorriu.

– Temos algum tempo até o amanhecer – disse. – Fique um pouco comigo, Takezo-san.

A garota estendeu os dedos finos na direção do rosto do samurai. Ele permitiu que ela o tocasse na face e o acariciasse.

– Sim, claro – ele respondeu, beijando-lhe a mão. – Perdoe a minha irritação.

A garota conduziu-o para fora, seus dedos gelados sobre o braço rijo do amigo. Ele deixou-se levar, contrariado. Tinha muito a fazer, não dispunha de tempo para conversas amenas. Mas seria incapaz de dizer um segundo “não” para Kaori numa mesma noite. Suspirou. A amiga, às vezes, parecia uma adolescente cheia de caprichos. E ele, um tolo brinquedo nas mãos dela.

Kaori, por sua vez, observava o samurai com o canto dos olhos. Fez com que ele se sentasse numa das cadeiras de vime da varanda e instalou-se ao seu lado.

– Terremotos não são bons para kyuketsukis – comentou de forma casual. – Temos dificuldades para sobreviver num local devastado, pois a luz do dia pode nos surpreender a qualquer momento. Não há sótãos, não há casas vazias, apenas pedras, madeira e pó, prestes a serem revolvidos por humanos à procura de sobreviventes. Não há abrigos seguros para desmortos.

Takezo remexeu-se, incomodado.

– Tenho aliados na região, que poderão me oferecer apoio, Kaori-dono… – começou a dizer.

Mas calou-se, pois a vampira não o ouvia.

Ela apoiara o rosto sobre as mãos, e então disse, com ar distante:

– Um terremoto… Enfrentei um terremoto em 1782, em Odawara.

O samurai a fitou, curioso.

– No início da Grande Fome da Era Tenmei? – ele indagou.

– Isso mesmo.

A vampira prosseguiu baixinho, a sua voz suave misturando-se ao farfalhar das folhas, ao ruído do vento percorrendo os aposentos do casarão:

– Eu tinha apenas um século e meio de existência, como você agora, Takezo-san. E era uma menina suja e selvagem, que ainda não possuía esta tatuagem de dragão.

Takezo consultou o relógio. Ainda eram sete horas da noite. Tinha tempo… Sim, tinha tempo de sobra para ouvir a sua senhora, que ali estava, concedendo-lhe a suprema honra de lhe revelar um pouco do seu passado. Ela, que nunca falava sobre o que ficara para trás.

Kaori havia fechado os olhos. Lembranças eram como anzóis lançados à distância, recolhendo vívidas sensações, sentimentos e pensamentos. Podiam trazer prazeres insuspeitos. Ou dores inesperadas…

Um pensamento em “Kaori e o samurai sem braço, romance ilustrado de Giulia Moon

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