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Por Jim Anotsu

Depois do bem recebido Annabel e Sarah, Jim Anotsu volta com A morte é legal, que está em pré-venda até o dia 15 de setembro. Segue abaixo um trecho do 1º capítulo.

1. No tempo dos chipanzés eu era uma ameba, lamento informar assim tão de repente

Todo garoto apaixonado é um pouco ridículo. Esta é a história de Andrew Webley: Um garoto muito ridículo. Também é sobre como amor, música, morte e alguma literatura se embaralharam no meio da estrada. As coisas começaram no pior dia do calendário – o dia dos namorados -, com a exclusão de um parágrafo.

Sentado no chão do quarto. Cotovelo sobre a perna e mão no rosto, olhar baixo encarando a página em branco do caderno – escrevia à mão porque não lidava bem com máquinas. Não conseguir escrever o incomodava, como se as palavras fossem rebeldes às suas ideias.  Isso lhe dava a impressão de que sua vida corria para fora de controle gota a gota, pernada a pernada.

Olhou para o embrulho vermelho em cima da cama. Um presente de aniversário para sua amiga: Briony O’Hanlon. A melhor amiga que tinha. Briony. Seu amor platônico há três anos. Bri-o-ny. Que tocava violino como ninguém.

Fechou o caderno e o guardou. Deixou as canetas na ordem correta sobre a mesinha do quarto e foi terminar de se arrumar. Andrew tinha dezenove anos, era alto e dono do porte físico de alguém em risco constante de ser levado pelo vento. Um bicho da terra sem graça, tristonho e pouco carismático, do tipo que leva uma vidinha emocionante feito alho-poró. Cabelos escuros e curtos que combinavam com seus olhos verdes e o deixavam parecido com uma versão jovem de Damon Albarn sob calmantes. Usava sempre luvas e cachecóis de lã mesmo quando o clima não estava muito ruim, mania adquirida na infância. Naquela manhã, vestia jeans escuro, tênis, camisa preta cuidadosamente engomada e um casaco de chemois.

Saiu do quarto. Presente e guarda-chuva na mão. Chave no bolso da calça. Conferiu o relógio mais uma vez. Todo minuto que antecedia um encontro com Briony fazia com que tremesse, suasse e que seu estômago se comportasse como um epilético na pista de dança. Desceu os degraus. Sua irmã assobiando uma canção pop na cozinha. Seu pai, sem pata de dúvida, já trabalhando no banco.

A irmã colocava leite num prato com cereal quando chegou à cozinha. Garotinha de quinze anos com cabelos pretos e algumas sardas no rosto. Parecia-se com a mãe, morta anos antes de uma doença com nome de jogador de beisebol.

– Bom dia, Andrew. – disse ela ao vê-lo. – A propósito, você está com uma cara horrível.

– Horrível, mas ainda assim melhor que a sua, Amber. Pense nisso. Até mais.

– Ei, não se esqueça de comprar um microfone novo para mim. Se eu não estiver com ele no próximo ensaio, Jonas vai devorar meu coração.

Amber se interessou por rap aos dez anos de idade, uma forma de se distrair da perda da mãe, comentou seu pai uma vez. O lado ruim foi o sumiço da paz. Andrew conjeturava se a tranquilidade de sua casa havia se refugiado com Thomas Pynchon ou algum outro recluso em qualquer canto do globo. Também ficaria grato em saber se havia espaço para mais um.

– Não acredito que o hábito alimentar dele seja tão ruim.

– Por favor, Andy, não tente fazer piadas, isso é tão-não-você.

Andrew deu de ombros e pegou um livro e seu Ipod antes de sair de casa. Devia se encontrar com Briony em frente ao Café Nickleby, que ficava a alguns blocos de distância. Caminhava a passos rápidos e vez ou outra cumprimentava alguma pessoa conhecida da vizinhança.

A chuva que caía sobre a cidade era fina. Sunny Day Real Estate tocava nos seus fones de ouvido. Não havia momento mais interessante para Andrew do que aquele em que caminhava pelas ruas de Dresbel. As centenas de cafés e livrarias e parques. A sensação de que mesmo num espaço com milhões de habitantes, conhecia a cidade e sabia que sempre havia algo que valia o tempo de alguém em meio ao barulho e agitação constante. O clima fechado e chuvoso não incomodava, acreditava ser o mais adequado do mundo. Mas naquele dia em especial, a cidade não lhe proporcionava o conforto rotineiro. Da decoração aos transeuntes, tudo colaborava para isso.

Odiava o dia dos namorados. O clima romântico incomodava porque remetia a todas as suas experiências amorosas malsucedidas e isso ampliava a sensação de incompetência. Pensava nas meninas que nunca o aceitaram. Como daquela vez na oitava série. Havia essa garota chamada Marie, filha de franceses, pela qual se apaixonou e que lhe deu o fora no ponto de ônibus em frente ao colégio. No dia seguinte ela beijou seu melhor amigo.

Alguém buzinou antes de quase atropelá-lo, fazendo com que o livro que carregava – “Os Moedeiros Falsos” – caísse numa poça d’água. Em Dresbel, o trânsito confuso lhe obrigava a ficar sempre atento. Murmurou um xingamento ao pegar o volume molhado, sacudiu para tirar o excesso e o colocou sob o braço.  Andrew entendia bem de livros e música triste alternativa, mas em relação a meninas, era como prego numa parede de gesso. Era um garoto doce e tentava viver, mas faltava-lhe algo e sempre acabava se apaixonando pelas garotas erradas. Íntimo de Holden Cauldfield e Gatsby e Dom Quixote. Conhecia seus corações e deles sabia tudo, enquanto não tinha nem uma ervilha do pensamento autêntico de uma pessoa.

Chegou ao Nickleby depois de algumas ruas. Vários consumidores entravam e saíam. Andrew ficou esperando encostado num poste. Ainda faltavam vinte minutos para que ela chegasse. Observava o fluxo de carros e pessoas.

Andrew viu um casal se escondendo da chuva sob o toldo de uma loja de equipamentos esportivos. Reconheceu a garota como sendo uma ex-colega de escola. Não sentia inveja da pessoa com ela, mas não deixava de imaginar o que havia de tão errado em si próprio para que não conseguisse o mesmo que ele. Pensou em alguns motivos, mas, quando sua lista mental ultrapassou a marca de setenta itens, viu que era melhor deixar de lado e só ficou ali, com o presente de aniversário para a garota que talvez o visse somente como um melhor amigo.

– Poderia ter escolhido outra data para nascer. – resmungou consigo – Seria bem mais educado.

– Ei!

Andrew assustou-se e tropeçou. Pôde ouvir uma risada baixa sendo sufocada. Sem nenhuma outra opção, riu de volta para a garota. Estava tão entretido com seus pensamentos que nem a vira se aproximar.

– Olá, Briony.

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