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Por Jim Anotsu

A literatura de fantasia pode ser uma roupa exclusiva feita por Marc Jacobs, uma bolsa superflat ou um artigo prêt-à-porter. Tudo depende do autor e do leitor em questão. Pode-se tomar um livro como objeto de culto e rogar aos deuses para que poucas pessoas o conheçam, um root cellar onde tudo pode ser armazenado ou como um Big Mac intelectual – te alimenta, mas não é um bouilabaisse feito por Jacques Pepin. Eu acho que um dos maiores atrativos do mundo da moda reside no conceito de individualidade e no sentimento que os grandes artistas de todas as áreas compartilham em comum: Nunca sentir-se em casa. Ou como diriam os escritores do século passado, como Patrick White: “Homeless as home”.

E assim deveria ser a literatura de fantasia: inquietante, individualista e espalhafatosa, mesmo no silêncio. Contudo, o que vem a ser para mim a ideia de não se sentir em casa? Bem, acho que isso nasce primeiramente do autor, quando ele olha além do umbigo literário escolhido e enfrenta a seara do vizinho. Gosto de pensar em Ralph Ellison, autor de Homem Invisível, uma das obras mais importante da literatura afro-americana. Ellison estudou música e nutria uma paixão incomensurável por Louis Armstrong, como pode ser visto em sua prosa ou nos ensaios do livro “Living with Music: Jazz Writings”. Ellison roubava da teoria musical a cadência para sua prosa ou a estrutura de pergunta-e-resposta do canto gospel, transformando-a num modo de falar.

Serguei Eisenstein, o famoso cineasta, assumiu ter se inspirado em “Paraíso Perdido” de John Milton para desenvolver sua teoria de edição – um dos pilares do cinema moderno da forma que conhecemos. Truman Capote fundiu jornalismo e literatura de forma inédita em “In Cold Blood” e Bob Dylan usou elementos formais de poesia em sua música – basta conferir Blood on The Tracks. Podemos incluir Jack Kerouac nessa lista, tentando reproduzir com sua prosa espontânea os longos solos de Charlie Parker e usando adjetivos sequenciais de forma a capturar a velocidade e a euforia daqueles anos. Toda essa divagação serviu para que o leitor enxergasse a forma como a literatura é capaz de dialogar com várias coisas ao mesmo tempo.

Eu me lembro do exato momento em que formei meu primeiro traço de consciência literária, aos onze anos de idade: sempre tive livros e revistas na minha casa – exemplares da Vogue e Tom Sawyer conviviam nas prateleiras – e um dia eu li a entrevista de algum escritor pop, não me recordo qual. Perguntaram ao homem por qual motivo ele inseria citações da cultura popular em suas obras – nomes de lojas, filmes e músicas. Ele respondeu que tentava reproduzir o mundo moderno em que vivia. Isso foi uma supernova dentro do meu cérebro. Eu decidi que iria fazer como aquele homem que eu não conhecia, tentaria capturar o meu mundo, inserir o maravilhoso na máquina de lavar e no ralador de legumes.

Foi apenas muitos anos depois que aprendi o conceito freudiano de unheimlich, ser familiar e estranho ao mesmo tempo, mas, eu sabia que isso me atraía desde criança. Essas ideias foram me acompanhando durante a vida inteira e se transformaram em outra coisa na medida em que minha paixão por cultura pop aumentava. Eu cresci cercado por discos de rock, livros clássicos e revistas em quadrinho e isso foi minha educação adolescente.

As pessoas costumam pensar que eu sempre quis ser escritor, o que não é verdade. Minha primeira paixão foi a moda e, pouco depois, a música. Não prossegui na primeira opção por opiniões familiares e abandonei a segunda por ser um péssimo violinista – o instrumento continua no meu guarda-roupa. Entretanto, eu havia lido bastante sobre os dois assuntos. Eu entendia da história da moda – parcamente – e sabia tudo sobre qualquer banda triste e desconhecida. Tudo isso se tornou fundamental para minha escrita no sentido de que eu adoraria colocar isso nas minhas histórias. Os milhares de contos que escrevi antes de publicar “Annabel & Sarah” geralmente mostravam modelos, guitarristas e poetas conversando com alienígenas que gostavam de punk rock ou um monstro com um interesse peculiar no vestido usado por Audrey Hepburn em “Bonequinha de Luxo”. Eu mantenho esse meu ideal de trazer todas as influências possíveis ao meu trabalho, seja o hip hop, poesia de T.S. Elliot ou os romances esquisitos de Thomas Pynchon e Genichiro Takahashi.

Misturar é bom! É gostoso. E a fantasia permite misturar tudo, então por que ficar nos elfos sábios da floresta e nos anões rabugentos das minas? Um autor que leia somente fantasia perde grandes oportunidades. Conheça os personagens de Charles Dickens, o humor de Saul Bellow e a desolação humana de “Meridiano de Sangue”. Eu não faço distinção entre ficção literária e de gênero, eu acho que existem livros dos quais eu gosto ou não. Enquanto escrevo essas linhas, posso ver minha estante de livros e Ian McEwan está ao lado de “O Hobbit” – ambos me agradam igualmente.

Um escritor de fantasia pode ter o melhor dos dois mundos, pode fazer a história que realmente quer, usando monstros, animais falantes e vampiros, enquanto desenvolve um drama, uma comédia ou tragédia grega no fundo. Qual outro gênero consegue ser mais legal? Então, eu penso que o legal é pegar tudo o que interessa e misturar. Acho que no Brasil todo mundo quer ser “Slayer” – tocando a mesma coisa por 30 anos – ao invés de ser Radiohead e fazer um rock hoje – Pablo Honey – e um disco eletrônico – KID A – amanhã.

O único problema na batedeira é quando isso acontece de forma leviana. É fácil ver autores que mais assistiram a filmes e leram mangás do que livros. O que acaba gerando aquela expressão que odeio: “Livro cinematográfico”. Eu sou da opinião que você pode roubar ferramentas de uma mídia diferente, mas não transformar uma coisa em outra. Romances são romances, filmes são filmes e música é música. Os jovens de hoje – Deus!, eu tenho 22 e já estou falando assim – são bombardeados por milhares de coisas ao mesmo tempo e imagino que a arte deles no futuro será um reflexo de seu próprio tempo, assim como David Foster Wallace reflete a geração 1990 e 2000 no seu livro Infinite Jest – com milhares de notas de rodapé e contradições. Porém, esse liquidificador deve ser focado numa direção.

Eu não quero escrever textos sérios e complexos, embora como um bacharelando em literatura inglesa seja isso o que eu mais leia até o fim do ano que vem. Eu quero fazer a melhor literatura pop que eu puder, o que envolve conhecer o maior número de coisas que eu puder. Mais é sempre mais.

Um pensamento em “Além da literatura de fantasia: aprendendo a olhar para os lados

  1. Excelente artigo!
    Da mesma forma que procuro alternar gêneros na leitura pretendo levar esse ecletismo para a escrita. Não só escrever uma ficção realista hoje e uma FC amanhã, mas ter sempre esse “coquetel demático” em cada universo criado. Como você mesmo diz: Misturar é bom!

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