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Por Andre Cordenonsi

Não, não vou falar sobre Steampunk ou retrofuturismo (sorry, steamers, este texto não é sobre vocês). Também não pretendo falar sobre romances de época ou ambientados em mundos paralelos, diversos, multiversos ou anversos. O objetivo aqui é analisar um fenômeno que se mantém ativo em boa parte da literatura fantástica e na cultura pop em geral: o retrô como elemento catalisador da fantasia. E, antes de qualquer coisa, convém salientar: vamos falar sobre a forma, deixando o idolatrado (e essencial) conteúdo para outra ocasião.

Podemos encontrar os elementos retrôs em diversos ícones da ficção especulativa, seja nos trajes medievais de George Lucas (que introduziu, ainda, um cowboy espacial e nazistas imperiais) e vestes oitocentistas de J.K.Rowling, ou na fixação pela burocracia vitoriana de Garth Nix (As Chaves do Reino) e na obsessão pelos lugares comuns de Neil Gaiman (Lugar Nenhum e O Livro do Cemitério).

O que une autores tão díspares? Na minha opinião, a opção de utilizar o retrô como um elemento de separação do “real” e do fantástico. A fantasia, portanto, só ocorre em lugares e tempo bem definidos. Para vários autores, se você é um frequentador de shopping e adora um McDonalds, lamento muito, a magia dificilmente lhe procurará sobre tetos de luz néon ou pisos caros de porcelanato.

A fantasia está nos cantos escuros, na periferia, nas lojas malquistas, no convívio com pessoas de aparência enigmática e nos objetos antigos e misteriosos. Esta concepção não é nenhuma novidade e, infelizmente, já teve consequências bem mais graves. Na Idade Média, ter ideias próprias poderia lhe dar uma passagem sem volta para os tribunais da Inquisição. A diferença entre um estudioso e um necromante ou entre uma curandeira e uma bruxa era tão tênue que dificilmente poderia ser identificada.

Acredito que o medo do desconhecido seja a face sedutora da literatura fantástica e, de um modo ou de outro, acabamos herdando a concepção de que coisas estranhas circundam o habitat das pessoas que vivem e utilizam aquilo.

O pode significar muitas coisas: terrenos baldios, casas caindo aos pedaços, catacumbas, o interior sombrio de castelos, as lápides misteriosas de um cemitério ou uma porção de vagões abandonados. Ou seja, lugares que não estamos acostumados a frequentar, que nos dizem ser proibidos e que nos dão medo. Sob outro aspecto, lugares onde a civilização passou ao largo, sem as comodidades modernas que nos definem atualmente. Somem os computadores, tablets e celulares. Não há calefação ou televisão, ou mesmo cozinhas de fórmica e copos de plástico. No seu lugar, aparecem as lareiras e as velas, os candelabros, as tochas e os lustres, as escadas de madeira grossa, os móveis ossudos e as xícaras (provavelmente, lascadas) de porcelana.

Essa ambientação ajuda o leitor a ingressar no ambiente fantástico. Ele se vê entrando no lugar proibido, procurando nos cantos escuros, andando pelas sombras. A atmosfera arcaica transporta os sentidos do protagonista e, em última análise, do leitor, para um mundo diverso, mesmo que este esteja há cinco passos da calçada onde ele passeava todos os dias. E como parte constituinte deste locus, temos também objetos proibidos e empoeirados que remetem a um passado desconhecido.

Caixas de segredos, relógios antigos, varinhas, aparadores de livros, aldravas maquiavélicas, corrimões de ferro frios como barras de gelo, gavetas com fundo falso, livros escritos à mão, pergaminhos, diários e canetas tinteiro. Vasculhem seus livros de fantasia e encontrarão, em maior ou menor número, esses artefatos preenchendo os ambientes com os detalhes necessários para conferir à leitura um toque de veracidade.

É nestes lugares onde a magia se manifesta quase como uma entidade física por si só que encontramos as pessoas ou seres misteriosos. Eles podem ser desajustados sociais ou possuir empregos estranhos (vendedores de ervas, curandeiros, maquinistas). Muitas vezes, mantêm ocupações nostálgicas (livreiros, arquivistas, vendedores de antiquários ou bibliotecários). Novamente, o retrô é usado como fonte de inspiração, tanto no vestir e no agir quanto no modo de vida. A concepção de trabalho assume outros valores e, via de regra, leva à exaltação da felicidade como consequência da escolha pela simplicidade.

Outra concepção fortemente inspirada no retrô está na voz emprestada aos personagens. Ursula Le Guin (Ciclo de Terramar) acredita que a linguagem é o elemento mais crucial na fantasia, pois conduziria à imersão do leitor no mundo criado. Linguagem rebuscada, oitocentista, medieval ou de qualquer outra época que se possa imaginar, realmente pode auxiliar neste processo de convencimento necessário para o leitor dar credibilidade ao mundo fantástico criado pelo autor. Tolkien, no prefácio do Senhor dos Anéis, estabelece como fonte de criação de toda a história o conjunto de línguas que ele inventara alguns anos antes.

No entanto, todas estas prerrogativas escondem armadilhas. A utilização da linguagem rebuscada pode confundir o leitor ou diminuir a credibilidade dos personagens. A falta de pesquisa ou de conhecimento do autor sobre a realidade que deseja retratar pode inundar o texto de clichês e construções equivocadas. Sois muy sortudo se nunca te deparastes com um escrito rebuscado sem ensejo aparente.

Na concepção do projeto Duncan Garibaldi, escolhi o tema ferroviário como parte da ambientação retrô. A ideia não é novidade, os trens a vapor há muito tempo resfolegam pela literatura fantástica (O Expresso Polar, de Chris Van Allsburg; As Terras Devastadas, de Stephen King, e uma locomotiva vermelha que leva alunos à Hogwarts são só alguns exemplos). O meu desafio era ir além deste ponto, transformando a vida ferroviária em um arquétipo da própria mitologia fantástica que pretendia desenvolver. No livro, o cenáriodas estações antigas, locomotivas e vagões abandonados traduz os pontos que levantei acima: o locus, as pessoas (antigos maquinistas, foguistas e outras profissões em desuso) e os objetos (locomotivas, carris, lampiões).

Neste ponto, alguém poderia perguntar: Meu caro articulista, a utilização de uma roupagem retrô é necessária para se trabalhar com o realismo fantástico? A resposta é um sonoro e obsequioso NÃO! A fantasia não necessita de elementos que induzam o leitor à percepção dos elementos não reais por meio de uma ambientação que remeta a uma realidade antiga. A concepção da Brigada dos Encapotados (Livros da Magia), e os romances Deuses Americanos e Os Filhos de Anansi (todos de Neil Gaiman) apresentam uma fantasia nitidamente urbana, onde magos, deuses e necromontes (sim, eu gosto desta palavra e ainda não tive a oportunidade de usá-la em meus escritos, por isso me perdoem) andam de terno e gravata, falam em celulares e trocam mensagens pela internet. Em terras tupiniquins, Eric Novello apresenta sua ideia de fantasia urbana nos livros A Sombra do Sol e Neon Azul. Afinal, o medo do desconhecido pode assumir várias facetas: um mandingueiro albino com uma camiseta regata do Flamengo, um inferninho em um subúrbio carioca ou um velho de longas barbas brancas e nariz adunco remexendo um caldeirão em um casarão abandonado. Não há escolhas corretas ou erradas. O projeto do livro deve falar por si mesmo. Eleja sua praia e fixe residência lá.

Mas atentai, ou teremos bruxos de camisolões andando pela Avenida Paulista e magos de smoking preparando poções em castelos abandonados! Valha-nos Odin!

3 pensamentos em “O retrô como ambientação na literatura fantástica

  1. Pois é, a linguagem esconde armadilhas, os lugares também… Na verdade a Magia pode aparecer em qualquer parte, mas repare: ela não é para todos, só para os escolhidos ou para as pessoas comuns que têm olhos para ver o que outros não veem. Eis por que, na minha opinião, ela se esconde em lugares inusitados, misteriosos e inacessíveis como os vãozinhos de escada. Belo texto, André!

    • Obrigado, Ana! Vãozinhos da escada ou em armários debaixo da escada, não é?🙂 Concordo inteiramente e acho que a ambientação fornece um elo importantíssimo entre o leitor e a história. Rumo ao desconhecido, de braços abertos! Amplexos!

  2. Pingback: Anônimo

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