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Páginas Noturnas: Você trabalha no universo de Necrópolis desde 2003. O primeiro livro, A Fronteira das Almas, teve sua primeira versão em 2010 e foi relançado agora em 2012 na Bienal de São Paulo. Na era do imediatismo, onde todo mundo quer terminar o livro em um dia e publicar no outro, como você aproveitou esse tempo de espera?

Douglas MCT: Sim, são mais de 10 anos de trabalho neste universo. Em 2003 eu tinha três ou quatro premissas das quais gostava muito, mas nenhuma delas tinha o principal para serem iniciadas: o objetivo do protagonista como motor para o enredo. Eu sabia que queria contar uma fantasia mais sombria do que os sucessos da época (Harry Potter e O Senhor dos Anéis, por conta do boom dos filmes na ocasião) e também já tinha alguns personagens e cenários rascunhados (como a mercenária, o vilão, a região de Ermo e Érebus etc. A pedra-fundamental foi surgir dois anos depois, em 2005, quando olhei para mim mesmo e vi que meu maior medo (o de perder meu irmão caçula, na época com 5 anos) encaixaria perfeitamente naquela proposta que eu estava construindo, onde queria mesclar terror com fantasia (sem saber que Stephen King já iniciara bem no gênero dark-fantasy na gringa), então foi disso que surgiu a história do rapaz que sai numa jornada em busca da alma do irmão em Necrópolis. Mas nem sempre este foi o nome do outro mundo e da série. Antes de chegar neste título, outros haviam sido considerados: Pompeya, Underworld e Submundo são os que lembro agora.

Enfim, foi de maio a outubro de 2005 que eu escrevi a primeira das primeiras versões de A Fronteira das Almas (o livro 1) – que hoje eu chamo de “rascunho”. Naquele ano, eu havia planejado apenas dois livros para a série, porque sentia que conseguiria contar tudo o que eu precisava neste formato. Foi só quando terminei as últimas páginas que concluí que precisaria de três ou quatro livros. Não era uma pretensão, era uma necessidade. A necessidade de narrar uma jornada que estava pedindo para ser escrita. Só fui chegar a 6 (que é o número oficial de livros que a saga terá) depois de ter começado o segundo livro, entre dezembro de 2005 e janeiro de 2006 (a premissa daquela vez foi mantida com fio condutor nesta versão de 2012). Durante 2005, quando ainda escrevia o “rascunho” do livro 1, aproveitei a ascensão do Orkut para divulgar trechos fora de ordem da história, um estrondoso sucesso em algumas comunidades de literatura fantástica. Os leitores daquela época me acompanham até hoje e alguns viraram personagens na série.

No começo de 2006 eu fiz minha primeira tentativa de publicação, com o surgimento de uma editora do gênero que hoje não existe mais. Antes, porém, achei justo passar o livro para duas pessoas que eu respeitava pela experiência de consumo de livros fantásticos. O feedback de ambas foi tão sincero, profissional e fortemente construtivo, que eu resolvi reescrever o primeiro livro inteiro, já com um mínimo de experiência se comparado ao autor de 2005. E isso aconteceu entre maio de 2007 e fevereiro de 2008. A primeira versão do livro 1 de 2010 que muitos leram, foi a reescrita dessa época. Entre 2006 e 2007, fui também o pioneiro no Brasil na feitura de booktrailers, com a essencial colaboração de um fã que trabalhava com edição. Foi nessa ocasião que conheci Isis Fernandes, que topou a difícil e trabalhosa tarefa de conceber toda a trilha sonora do livro (e o início do projeto multimídia que envolveria toda a obra), levando 4 anos com mais de 40 músicas que estarão disponíveis para os leitores no novo site de Necrópolis.

No segundo semestre de 2009 eu fui contatado pela Gabi Nascimento, que na época trabalhava em outra grande editora, muito interessada pelo meu material. Reuniões com chefões vindos de outros estados aconteceram, inclusive a ideia do mapa em cores no capricho (que o leitor pode conferir nessa nova versão do livro 1) surgiu ali. Mas empacou, não rolou e eu toquei o barco. No final de 2009 o Erick Santos abriu as portas da Draco e assinei com ele. Necrópolis 1 – A Fronteira das Almas teve sua primeira versão lançada em outubro de 2010, finalmente. Mesmo estando numa editora pequena, a repercussão da obra foi mais do que satisfatória, com seis reimpressões. Em 2011, a Gabi, agora na Gutenberg, me fez uma proposta para Necrópolis, mas assinei com ela outra série que tinha na gaveta, O Coletor de Almas, o primeiro de uma trilogia que apresenta outro mundo e novos personagens. Meses depois, também fechei com eles toda a série de Necrópolis para novas edições.

Agora, finalmente respondendo sua pergunta: nestes 10 anos, eu aproveitei o tempo de espera lendo muito livro, consumindo muito seriado, muito filme, muito desenho animado, muita HQ e escrevendo um bocado, aprimorando, sendo chato comigo mesmo. Publiquei 6 contos em coletâneas, roteirizei animações para TV Cultura e Globo, para games sociais, iniciei o roteiro de um mangá, comecei a estruturar novos romances… Eu consumi e produzi, foi isso o que eu fiz. É o que ainda faço.

 

PN: Necrópolis 1 – A Fronteira das Almas tinha uma dinâmica mais juvenil, enquanto Necrópolis 2 – A Batalha das Feras é um livro mais intenso e, como o próprio título diz, gira em torno de uma batalha. Foi uma evolução planejada?

MCT: O primeiro livro ainda tinha o espírito do jovem autor Douglas MCT de 2005, ou do Douglas de 2007-2008, mais inocente, ingênuo e buscando um estilo, uma forma própria de contar suas histórias. A Fronteira das Almas (livro 1) está mais calcado na batida Jornada do Herói, ainda que ali eu tenha mudado algumas estruturas. É como um road movie, o begins, descobertas de um mundo a ser desbravado, eu descobrindo muita coisa junto do leitor e do protagonista.

Enquanto que A Batalha das Feras (livro 2) é contemporâneo, com o Douglas MCT de 2012, um pouco mais maduro e experiente, com seis contos e dois romances publicados. Outra coisa. O mundo de Necrópolis e seus personagens já haviam ganhado vida para mim, tudo agora tinha se tornado tridimensional e orgânico, então o processo foi mais rápido e melhor. Como são filhos, não vou medir qual é o melhor, mas gosto mais desta continuação. Tem muito mais do estilo que tanto busquei alcançar, contei a história que queria contar, e consegui amarrar pontas que no primeiro ficaram soltas aqui e ali. Este segundo livro é mais como O Fugitivo (com Harrison Ford), com fortes passagens mórbidas no meio e uma guerra (nada tradicional) no desfecho. Em AFdA, Verne precisa aprender a confiar e acreditar. Neste ABdF, ele precisa aprender a superar e a ter coragem.

Tenho certeza que o leitor vai sentir essa diferença e, assim como Verne, carregará um peso nas costas que só continuações são capazes de proporcionar.

PN: Séries juvenis geralmente mantém um retorno ao mesmo mundo a cada livro, com o foco no mesmo grupo de personagens centrais. É assim que Necrópolis funciona?

MCT: De certa forma, sim. No primeiro livro, Verne vai para Necrópolis de uma maneira bem inusitada, que é uma das três maneiras de se chegar no outro mundo. Nesta continuação, ele usa outra forma e terá de enfrentar um perigo ancestral, além de algumas perdas – e isso é só o começo da história. No terceiro livro, ele usa a última maneira para chegar em Necrópolis. Do quarto em diante já tenho planos também, mas é cedo para falar disso.

Apesar de que, quando Verne chega em Necrópolis neste livro 2, os personagens que o acompanham por mais de boa parte do enredo não são os mesmos do livro 1. Foi uma necessidade da trama, por isso aconteceu. Mas gosto de brincar com possibilidades e não ficar preso em fórmulas ou saídas que eu mesmo criei. O que foi estabelecido se mantém, é claro, e os fundamentos da série também, mas eu nunca entrego de bandeja para o leitor.

PN: Na atual edição houve um cuidado na parte gráfica, com capas mostrando cenas do livro, ilustrações internas e até um mapa do seu mundo. Qual era a sua proposta para o visual de Necrópolis e o que você achou do resultado final?

MCT: A nova edição pela Gutenberg está de fato primorosa. A ideia do mapa colorido tinha surgido em 2009, mas quando apresentamos para os superiores da editora em 2011, foi sugerido que ele, além das cores, fosse elaborado em papel couchê – e a parte de ser em 3D é uma liberdade do artista, MJ Macedo, que foi excelente. Este mapa especial em página tripla só consta no livro 1. Considerando que é uma série e o leitor já possui uma das obras, o livro 2 também traz o mapa, mas em preto e branco, e diagramado normalmente no miolo. A lista de nomes, bandeirolas e marcações, são também interessantes para o leitor, com informações do mundo que ele está prestes a viajar.

As artes internas foram ideias da Gabi, minha editora. Um tiro certeiro. Tanto o primeiro quanto o segundo livro são divididos em Partes (o 1 em três e o 2 em quatro) e essas ilustrações estão ali para dividi-las. Cada uma representa de forma macro centenas de páginas, algumas são belíssimas, outras de arrepiar.

Quanto as capas, esta foi a parte mais trabalhosa, de ideias antigas que eu tinha. Ocorreram dezenas de reuniões com editora e artista, e chegamos a várias soluções, até termos essas versões finais. Na parte de diagramação, inclusive, eu montei um boneco e enviei para os responsáveis, que seguiram em boa parte minha proposta enquanto autor chato e sistemático que sou.

Outro detalhe importante que ressaltei foi o uso do que eu chamo de “cores-temáticas”. Ao meu ver, livros seriados precisam se distinguir um do outro não só pelos subtítulos e ilustrações, mas também as cores principais da capa. Por isso, Necrópolis 1 é azul. Ele reflete não só o fantasmagórico que permeia a história, como também estabelece conexão direta com o subtítulo: “Fronteira das Almas”. A capa deste, inclusive, é num cenário do clímax da trama, que é justamente nestes tons de azul escuro. Tudo se encaixou perfeitamente.

Em Necrópolis 2 é verde. A cor da floresta, cenário principal deste enredo. A cor das folhas, das árvores, do clima de natureza (que tem mais de um sentido na história). Outro detalhe a se considerar: na Terra, o ectoplasma de um humano é azul; em Necrópolis, o ectoplasma de seus habitantes é verde. Usar este sentido em terceiro plano também ajuda a amarrar os simbolismos da série com suas capas. E uma revelação: a cor-tema do livro 3 será púrpura. Quem leu os dois primeiros romances já sabe o que a cor significa e o que ela pode trazer em significados para a futura trama.

Enfim, este resultado final eu devo a equipe de arte da Gutenberg e ao MJ Macedo, pois atingiu exatamente o que imaginava para os livros da série.

PN: Nos seus trabalhos, você geralmente faz uma grande mistura de referências e mitologias, numa verdadeira sopa pop. Como você chegou a essa ideia de formato ideal?

MCT: Eu nunca pensei nessa mistureba como um formato ou uma fórmula, apenas aconteceu. Isso tudo se deve ao que eu consumo. Eu leio muitos comics, cartoons, mangás, álbuns europeus, HQs de horror. Assisto a muitos filmes de suspense, terror e fantasia, o mesmo vale para séries e desenhos animados, ocidentais ou orientais. Leio dezenas de livros do gênero, joguei muitos games na adolescência e só trabalho ouvindo trilhas sonoras de filmes ou jogos. Eu consumo todo esse acervo pop desde os 3 anos, quando aprendi a ler com Turma da Mônica. Sempre fui eclético para a maioria dos meus gostos para as mídias e experimentei de tudo neste meio, nestes mercados.

Porque histórias são universais. A mídia é apenas isso: mídia. É uma forma de transmitir uma história. E uma história pode ser contada de diversas maneiras, por qualquer mídia. Quando concebi Necrópolis, apostei alto vendo que daria para usar meu grande lote de referências na hora de conceber personagens, cenários e cenas.

Alguns exemplos: Simas Tales, o ladrão velocista, tem um pouco de The Flash e um pouco Tiyu (de Yu Yu Hakushô); o Planador Escarlate dos mercenários funciona de forma semelhante à tecnologia de um Evangelion; Karolina Kirsanoff é minha homenagem ao meu artista predileto, Joe Mad, e sua Red Monika; Elói é uma mistura de Mace Windu com Morpheus; Dantalion é minha versão de Drácula; Martius Oly foi claramente inspirado em um grande amigo do passado, trazendo um sorriso meio Cheshire meio Coringa; Sofia Lacet é uma interpretação light da Tia May Parker; o capítulo Os Cinco no livro 1 foi inspirado numa sessão que mestrei de D&D; o ectoplasma é como o ki, o cosmo, ou o chacra; as mortes do primeiro livro trazem o clima de animes de terror e o prólogo deste romance é um homenagem a filmes de exorcismo; a Fronteira das Almas teve o Yomotsu Hirasaka de Cavaleiros do Zodíaco como referência, e por aí vai. Eu sou o que consumo.  Tudo isso formou uma colcha de retalhos que eu aprendi a costurar e que me deu vazão para criação de uma nova colcha, num tecer eterno. Esse processo é maravilhoso.

PN: Você lançou recentemente um pocket chamado O Coletor de Almas. Ele segue a mesma dinâmica dos livros de Necrópolis ou é um trabalho diferente?

MCT: É um trabalho diferente. A única semelhança de O Coletor de Almas com Necrópolis é que eles seguem pelo mesmo gênero: o dark-fantasy. Nessa outra série (intitulada As Viagens da Peregrina do Tempo e da Terra, que será uma trilogia) eu resolvi correr riscos, fazer experimentações. OCA foi meu laboratório de narrativas. Aproveitei o humor negro embutido no enredo para fazer algumas brincadeiras para valer. Ele possui uma dinâmica mais semelhante às histórias em quadrinhos (outro terreno que sou apaixonado, onde estou fortemente envolvido com mais projetos em andamento), tanto na forma de contar a trama como no diálogo dos personagens e na velocidade com que tudo acontece. Menos detalhes, mais situações, capítulos curtos, enredo fluído, pá-pum. A linguagem diferente dele foi proposital, não só por estes motivos, como também para não ser confundido com Necrópolis.

Pelo ótimo feedback que venho tendo dos meus leitores desde o começo do ano, quando OCA foi lançado, acredito que essa experiência deu certo. Aliás, apesar do humor negro citado acima, este é um livro sobre o fim do mundo. Tem até romance. É trágico. É para todos os gostos.

Necrópolis e O Coletor de Almas são universos distintos e não vão se cruzar. Somente Baba Yaga (que aparece em OCA, aparece no meu conto “Encruzilhadas” do livro Sagas 3, e também fará uma participação especial no livro 3 de Necrópolis) é que faz essa ‘relação’, também proposital. É uma personagem universal em qualquer universo que eu crie (inclusive audiovisual e quadrinhos). Ela me representa simbolicamente. É o Douglas MCT fazendo uma pontinha em seus livros. Mas chega de falar na terceira pessoa.

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