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Por Kyanja Lee –

Hieróglifo

Quando recebi o convite do Eric Novello para postar algo sobre o meu trabalho no Páginas Noturnas, fiquei lisonjeada, mas ao mesmo tempo receosa. Fazer divulgação por divulgação não acredito que seja o mérito de qualquer post, mas sim algo que acrescente, some, faça as pessoas terem uma nova visão sobre algo que desconhecem ou conhecem pouco.

Eu lido basicamente com novos autores, seja executando relatórios de leitura crítica, revisão, preparação ou edição em seus originais. E quando digo novos autores, digo despreparados, alguns bem crus mesmo. Quantas pessoas não sonham em ter um livro publicado, achando que basta uma boa ideia (ou que julgam ser)? Quantos não acham que basta colocar no papel as ideias conforme o seu jorro criativo as fazem verter?

Publicadores de livros há aos montes; basta ver a quantidade de títulos lançados ano após ano. Mas, e escritores? O que os diferencia da grande massa, fazendo-os ficarem acima da média, numa situação não necessariamente confortável ‒ muito pelo contrário? Pois o verdadeiro escritor lida com uma demanda maior do que a de mercado, que é a sua, interna, que o faz buscar traduzir em palavras o que não consegue por outros meios.

Discursos à parte, vamos nos ater à maioria. Como fazer para publicar um livro aceitável pelo mercado, ou não rejeitado pelo leitor? Canso de receber e-mails de autores inseguros, inexperientes, vagamente cientes de que seu original não está pronto. Quando me solicitam auxílio para melhorias textuais, há aqueles que me perguntam: “Você acha que se eu fizer essas melhorias com você terei uma boa chance para publicar em uma editora grande?”

Sou bastante sincera em responder: “Garantias eu não posso lhe dar. A única coisa que posso lhe garantir é que você vai ficar satisfeito, e o seu texto ficará muito melhor. Testemunhos de clientes satisfeitos tenho vários. Mas não depende apenas de mim, né? Afinal, trabalharei em cima de algo que é seu, ou seja, o conteúdo é seu; estarei apenas dando uma força na forma. Será que dá pra entender isso? Estou sendo absolutamente honesta com você. Mesmo porque não sei o quanto a sua obra acrescenta em relação a outras já escritas.”

Tem autores que estão quase lá, prontos, que já chegaram a publicar alguns contos ou um romance ou outro. Mas ainda não dominam totalmente as palavras. Às vezes fazem uso de lugar-comum em excesso, ou dizem algo que não precisaria ser dito, apenas sugerido (ansiedade de autor iniciante). Mais difícil do que dominar técnicas é dominar palavras. Afinal, dominar palavras, ideias e conceitos requer uma longa jornada de leituras, reflexões, introjeções. E mais do que dominar ‒ dizer algo novo, fresco, inovador. Só escrever bonitinho não vale, né? (OK, em alguns casos vale sim…)

Outra questão é a ansiedade pela publicação ou pelo status de escritor, que me sugere que as redes sociais ajudam a potencializar. Virou cult dizer que é escritor. Se não dá dinheiro, pelo menos ajuda a angariar amigos e popularidade. (risos) Quanto penso nisso, ocorre-me uma imagem: a do escritor padeiro e do escritor confeiteiro. Há quem seja o tipo escritor padeiro que, tão logo tenha sovado a massa (escrito o seu livro), entrega o pão fresquinho, saído da boca do forno a ávidos consumidores. E há quem seja o tipo escritor confeiteiro que, ao escrever o seu original, ainda o deixa repousar (não mais em gavetas, mas em pastas e arquivos digitais), para voltar a ele mais tarde. E, no novo olhar que o distanciamento lhe permite, acaba por confeitá-lo com palavras e ideias mais estilosas, movido por um perfeccionismo perturbador e/ou pelo gosto de presentear o seu leitor com a degustação de algo mais elaborado. Sabe aquele escritor perfeccionista que busca colocar a cereja no topo do bolo, ou acertar o ponto da calda de açúcar e, mesmo na versão 10.1.B de seu original, ainda não está satisfeito? Ainda busca um final mais impactante, ou aquela frase nunca dita…

Ah, se tratasse apenas de correção do português, do bom emprego das palavras, para resolver todos os problemas de um texto ‒ um bom revisor daria um jeito nisso, não é mesmo? (E nem me venha apelar para o revisor do Word, pois este não perde o posto apenas por não ser remunerado. Ele não foi dimensionado para caçar todas as possibilidades linguísticas e aplicar a melhor regra de sintaxe). E quanto às inconsistências na narrativa, às pontas soltas, à falta de delineamento dos personagens? Como ter certeza de que o autor conseguiu atingir o seu objetivo com determinado texto? Será que conseguiu ao menos transmitir a premissa de sua obra? Aliás, será que sabe definir a premissa de sua história?

Ultimamente, quando um autor me procura, solicito que me anexe a premissa de sua história. Se ele souber fazê-lo com propriedade é porque o tem claro em mente. Se não souber desenvolvê-lo adequadamente, não duvidarei nada de que teve problemas até no fio condutor da narrativa.

É por isso que, antes de submeter o seu original para o crivo de um editor, antes de considerá-lo pronto, é essencial que o encaminhe antes a um leitor crítico profissional ou a uns dois ou três leitores treinados de sua confiança (leitores com visão crítica, por favor, que não joguem confete, mas que acrescentem, enxerguem o que pode ser melhorado). Somente com esse test drive de uma leitura prévia por leitores treinados você terá o feedback adequado e saberá se há ajustes a serem feitos na trama, na estrutura, nos diálogos, nos perfis dos personagens, no ponto de vista narrativo, etc.

Agora, faz-se necessário comentar as diferenças do trabalho de três profissionais envolvidos (ou do mesmo profissional, se for completo): o revisor, o preparador e o preparador-editor (antigo copidesque, figura em extinção no meio editorial, engolido pelas sobreposições de funções):

Ao se pensar no autor providenciando esse serviço como etapa prévia à submissão de uma editora, é importante que ele tenha a noção de que tipo de profissional será o mais adequado para lidar com o seu texto: uma simples revisão, uma boa preparação ou uma intervenção mais profunda no texto, com uma superedição? Acredito que até nesse quesito os seus leitores (se forem totalmente confiáveis e donos de um senso crítico apurado) podem aconselhá-lo a que tratamento o seu original deve ser submetido. Vou dar uma pincelada por alto sobre as principais diferenças (embora sejam sutis):

Revisor – O revisor precisa ler, entender, compreender o conteúdo e, assim, corrigir problemas. As correções ortográfica e gramatical, no entanto, continuam sendo uma das esferas mais amplas de sua atuação.

Preparador – Quando o texto carece de legibilidade ou está mal redigido, é o momento de o copidesque entrar em ação e intervir, de maneira incisiva, para conferir ao original uma leitura palatável.

Consiste na leitura cuidadosa da obra para correção de incoerências, repetições, uso incorreto da língua e falta de normalização. A boa preparação faz correções adequadas para o público-alvo da obra; confere se o texto está claro, lógico e coerente tanto internamente quanto em relação à cultura brasileira; levanta inconsistências e sugere alterações; elimina repetições.

Editor de textos – Faz intervenções profundas, melhorando substancialmente o texto, promovendo acréscimos ou cortes quando necessários. É ele quem vai, além de simplesmente melhorar uma frase, decidir o que está a mais. Pode, em função de necessidades editoriais, promover redução de 10% (ou bem mais) da trama, alterar a ordem de capítulos ou até eliminar algum, se não for essencial. Para a contratação desse preparador-editor, o autor precisa entender claramente a sua função e ser “desapegado” de sua obra.

Assim, mediante esse conhecimento prévio das especificidades de serviços textuais, o autor tem como avaliar melhor o que buscar e com o que estará sendo remunerado pelo valor acertado. Informe-se se o profissional tem os pré-requisitos necessários para o nível de intervenção desejado. Afinal, se o livro é comparado ao mesmo nível de um filho, você não vai entregá-lo na mão de profissionais pouco qualificados e, tampouco, economizar, né?

* Se interessou? Passe no site da Kyanja Lee e converse com ela.

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